Versos Portuguese filho Alexandre Dumas Estâncias a Emma

Portuguese poem

Estâncias a Emma

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I

Sem ponto fixo onde aprouvesse ao homem; Nosso destino em suas mãos estava.

Quadrava-lhe Saint-Cloud. Eia! pois vamos! É um sitio de luz, de aroma e riso. Demais, se as nossas almas conversavão, Onde estivessem era o paraiso.

Fomos descer junto ao portão do parque. Era deserto e triste e mudo; o vento Rolava nuvens côr de cinza; estavão Secco o arbusto, o caminho lamacento.

Rímo-nos tanto, vendo-te, ó formosa, (E felizmente ninguem mais te via!) Arregaçar a ponta do vestido Que o lindo pé e a meia descobria!

Tinhas o gracioso acanhamento Da fidalga gentil pisando a rua; Desaffeita ao andar, teu passo incerto Deixava conhecer a raça tua.

Uma das tuas mãos alevantava O vestido de seda; as saias finas

Ião mostrando as rendas e os bordados, Lambendo o chão, molhando-te as botinas.

Mergulhavão teus pés a cada instante, Como se o chão quizesse alli guardal-os. E que afan! Mal podiamos nós ambos Da cubiçosa terra libertal-os.

Doce passeio aquelle! E como é bello O amor no bosque, em tarde tão sombria! Tinhas os olhos humidos, — e a face A rajada do inverno enrubecia.

Era mais bello que a estação das flôres; Nenhum olhar nos espreitava alli; Nosso era o parque, unicamente nosso; Ninguem! estava eu só ao pé de ti!

Perlustrámos as longas avenidas Que o horizonte cinzento limitava, Sem mesmo ver as deosas conhecidas Que o arvoredo sem folhas abrigava..

O tanque, onde nadava um niveo cysne Placidamente, — o passo nos deteve;

Era a face do lago uma esmeralda Que reflectia o cysne alvo de neve.

Veio este a nós, e como que pedia Alguma cousa, uma migalha apenas; Nada tinhas que dar-lhe; a ave arrufada Foi-se cortando as aguas tão serenas.

E nadando parou junto ao repucho Que de agua viva aquelle tanque enchia; O murmurio das gottas que tombavão Era o unico som que alli se ouvia.

Lá ficámos tão juntos um do outro, Olhando o cysne e escutando as aguas; Vinha a noite; a sombria côr do bosque Emmoldurava as nossas proprias mágoas.

N'um pedestal, onde outras phrases ternas, A mão de outros amantes escreveu, Fui traçar, meu amor, aquella data E junto d'ella pôr o nome teu!

Quando o estio volver aquellas arvores, E á sombra d'ellas fôr a gente a flux,

E o tanque reflectir as folhas novas, E o parque encher-se de murmúrio e luz,

Irei um dia, na estação das flôres, Ver a columna onde escrevi teu nome, O doce nome que minha alma prende, E que o tempo, quem sabe? já consome!

Onde estarás então? Talvez bem longe, Separada de mim, triste e sombrio; Talvez tenhas seguido a alegre estrada, Dando-me aspero inverno em pleno estio.

Porque o inverno não é o frio e o vento, Nem a erma alameda que hontem vi; O inverno é o coração sem luz, nem flôres, É o que eu hei de ser longe de ti!

II

Eu já previa o funebre desfecho D'esse tempo feliz, — triste de mim!

O nosso amor nem vio nascer as flôres; Mal aquecia um raio de verão Para sempre, talvez, das nossas almas Começou a cruel separação.

Vi esta primavera em longes terras, Tão ermo de esperanças e de amores, Olhos fitos na estrada, onde esperava Ver-te chegar, como a estação das flôres.

Quanta vez meu olhar sondou a estrada Que entre espesso arvoredo se perdia, Menos triste, inda assim, menos escuro Que a duvida cruel que me seguia!

Que valia esse sol abrindo as plantas E despertando o somno das campinas? Inda mais altas que as searas louras, Que valião as flôres peregrinas?

De que servia o aroma dos outeiros? E o canto matinal dos passarinhos?

Que me importava a mim o arfar da terra, E nas moutas em flôr os verdes ninhos?

O sol que enche de luz a longa estrada, Se me não traz o que minh'alma espera, Pôde apagar seus raios seductores: Não é o sol, não é a primavera!

Margaridas, cahí, morrei nos campos, Perdei o viço e as delicadas côres; Se ella vos não aspira o halito brando, Já o verão não sois, já não sois flôres!

Prefiro o inverno desfolhado e mudo, O velho inverno, cujo olhar sombrio Mal se derrama nas cerradas trevas, E vai morrer no espaço humido e frio,

É esse o sol das almas desgraçadas; Venha o inverno, somos tão amigos! Nossas tristezas são irmãs em tudo: Temos ambos o frio dos jazigos!

Contra o sol, contra Deos, assim fallava Dês que assomavão matinaes albores;

Eu aguardava as tuas doces lettras Com que ao céo perdoasse as bellas côres!

Ião assim, um após outro, os dias. Nada. — E aquelle horizonte tão fechado Nem deixava chegar aos meus ouvidos O écho longinquo do teu nome amado.

Só, durante seis mezes, dia e noite Chamei por ti na minha angustia extrema; A sombra era mais densa a cada passo, E eu murmurava sempre: — Oh! minha Emma!

Um quarto de papel — é pouca cousa; Quatro linhas escriptas — não é nada; Quem não quer escrever colhe uma rosa, No valle aberta, á luz da madrugada.

Mandão-se as folhas n'um papel fechado; E o proscripto, anciando de esperança, Póde entre-abrir nos labios um sorriso Vendo n'aquillo uma fiel lembrança.

Era facil fazêl-o e não fizeste! Meus dias erão mais desesperados.

Meu pobre coração ia seccando Como esses fructos no verão guardados.

Hoje, se o comprimissem, mal deitava Uma gotta de sangue; nada encerra. Era uma taça cheia: uma criança, De estouvada que foi, deitou-a em terra!

É este o mesmo tempo, o mesmo dia. Vai o anno tocando quasi ao fim; É esta a hora em que, formosa e terna, Conversavas de amor, junto de mim.

O mesmo aspecto: as ruas estão ermas, A neve coalha o lago preguiçoso; O arvoredo gastou as roupas verdes, E nada o cysne triste e silencioso.

Vejo ainda no marmore o teu nome, Escripto quando alli comigo andaste. Vamos! Sonhei, foi um delirio apenas, Era um louco, tu não me abandonaste!

O carro espera: vamos. Outro dia, Se houver bom tempo, voltaremos, não?

Corre este véo sobre teus olhos lindos, Olha não caias, dá-me a tua mão!

Choveu: a chuva humedeceu a terra. Anda! Ai de mim! Em vão minh'alma espera. Estas folhas que eu piso em chão deserto São as folhas da outra primavera!

Não, não estás aqui, chamo-te embalde! Era ainda uma ultima illusão. Tão longe d'esse amor fui inda o mesmo, E vivi dous invernos sem verão.

Porque o verão não é aquelle tempo De vida e de calor que eu não vivi; É a alma entornando a luz e as flôres, É o que hei de ser ao pé de ti!