Portuguese poem
A costureira, e o pintasilgo morto
by Alphonse de Lamartine (1790–1869)
Tu cujas azas tremulas O meu olhar tornava; Cujo trinado harmonico Meus dias alegrava, Ai, já não ouves!―Chamo-te, E é vão este chamar! Chegou a estação gelida; Foi para te matar.
Nunca me has-de esquecer! Por bem seis annos, Companheira leal Tu me foste, avesinha; Meiga entre as meigas, desprezando os campos, Deslembrada da mãe, que, á noite, aninha No movel cannavial.
A ti, affeita a mim, affiz-me em breve. Meu unico recreio Era brincar comtigo. Ao veres-me encerrar no pobre alvergue Gorgeiavas, e o tedio o canto amigo Volvia em brando enleio.
Meu amor te suppria a liberdade; Meus passos traduzias, Meu gesto, meu falar; Repetias-me o nome em teus modilhos; Punhas-te a chilrear Quando sorrir me vias.
Oh, que par! Que viver sereno e sancto! Estavamos tão bem! Nosso parco alimento Com a ponta da agulha eu mourejava, E dizia scismando:―o meu sustento É o delle tambem.» Sementes varias dava-te co' a alpista, E, qual ramalhetinho Feito na orla do prado, Á 'splendida gaiola atar me vias, Para debique teu, de herva um punhado,
De alface um tenro olhinho.... Se ao menos fosse licito Saberes que pranteio!.. Ai, foi em dia identico, Que teu adejar veio Fazer brilhar o jubilo Neste triste aposento, Onde em saudosa magua, Sósinha te lamento!