Versos Portuguese Antónia Pusich Homenagem a Luiz de Camões

Portuguese poem

Homenagem a Luiz de Camões

by (1805–1883)

Listen in the reader

Vereis amor da patria, não movido De premio vil; mas alto, e quasi eterno: Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi; vereis o nome engrandecido D'aquelles de quem sois senhor superno: E julgareis qual he mais excellente Se ser do mundo Rei, se de tal gente.

Cesse tudo o que a Musa antiga canta, Que outro valor mais alto se alevanta.

«Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso.»

Camões Canto 1.

Eil-o erguido! o faustoso monumento Que os vindouros e o tempo hão de acatar! Triumphou o grandioso pensamento Que a patria poude alfim desaffrontar.

Salve excelso Camões! na eternidade Onde exultas de gloria, e immensa luz, Onde eclipse não ha, nem tempestade Tens ditosa, immortal vida sem cruz,

De teus lumes um raio á terra envia, A patria que foi tu'aos filhos seus! Portugal te consagra n'este dia A homenagem devida aos manes teus!

Sem te erguerem padrões, olvido ingente, Dormem seculos tres povos e reis! Mas... Fernando, e Luiz , co' a lusa gente Cumprem do alto dever sagradas leis!

De seu filho adorado não podia A patria o nome, e as honras esquecer! As nações tem a sua lethargia... Mas os brios jamais hão-de morrer!

Em teu canto divino eternisaste De terrenas acções gloria e louvor, Dos heroes que de louros coroaste, Grande assumpto!... maior inda o cantor!....

Dá cobiça de fama aos feitos alma A ti foi patrio amor co' a luz dos ceos!... De martyr, e de heroe ganhaste a palma Laureis, honras e amor!... dignos tropheos,

E verás Portugal pagando o preito Devido ao grande heroe dos nautas rei; Que aos perigos expondo o egregio peito, Ao fero Adamastor impoz a lei!

Que viu nascer o sol em berço d'oiro, E do Oriente, à patria, as chaves deu! Que inspirando Camões, melhor thesoiro, Mais subido valor offereceu!

Padrão sublime, honroso monumento Do Gama illustre as cinzas guardará! A patria immortalise o sentimento Pois a fama do heroe eterna é já.

E pudeste, nação altiva e forte Algum tempo olvidar teu proprio ser, Despertas! o lethargo iguala a morte! Contempla, oh! quanto è bello o alvorecer!

Ouviste alto clamor, supremo brado Dizer a Portugal ― reparação! E o justo enthusiasmo redobrado d Veloz passa da mente ao coração!

Vidigueira briosa que soubeste, Os memorandos restos conservar; C'roa déste de louro e de cypreste A quem deu brilho à terra, e leis ao mar!

Salve oh! Gama! guiou-te ao oriente A estrella do teu sonho nacional! nol O universo abrangendo esplandecente, Eil-a agora pharol septentrional!

Mostraste à Europa um mundo antes não visto! Domaste os mares, invocando os ceos! Levaste ao povo inculto a lei de Christo, Trouxeste á patria innumeros tropheos!

A heroes marcaste o trilho, e mais que humanos Trocando as vidas pela gloria os ves! Dos evos não soffrendo horriveis damnos Renome dando ao nome portugues.

Sobre escolhos firmar podeste um templo! Respeitam-o terriveis escarceus! E depois, que aos heroes legaste o exemplo, Ás alturas voaste! à gloria, aos ceus!

·

Camões! vate sublime, o inclito Gama, Em teus cantos eterno inda reluz! Déste ao merito altares, culto, fama! Sê meu phanal! ao templo me conduz!

Na soidão que busquei, saudosa, triste, Junto á dôr sente o oppresso coração, O amor que do christão no peito existe, Que se expressa na voz da gratidão!

Os seculos venceste, oh! genio immenso. Das mais longinquas, vastas regiões, Em tributo as nações dão loiro incenso, Homenagem ao nome de Camões.

Eu dou-te uma oração!... d'essas alturas, Onde os voos ergueste Aguia veloz, Cisne, ou astro, onde vives e fulguras Dá luz ȧs trevas, da me força á voz!

O teu nome cantar hoje pertendo, E o debil peito nem resiste à dôr! Á virtude homenagem offrecendo, Pintar quero as grandezas do Senhor!

Habitando inda a terra, este ermo triste, Sondaste a eternidade, e mais que Orpheu, Do remoto porvir arcanos viste, E o laurel destinado ao nome teu.

Camões vate, e guerreiro se a aurea lyra Os sons quizesse à terra conferir, Saudoso o Tejo, que por ti suspira, Seu gyro suspendera p'ra te ouvir!

Cantaste ao som das procellas As glorias de Portugal, Disseste ao sol, e ás estrellas, Que uma luz à sua igual Tem de heroes as acções bellas, D'alta fama perennal!

Cantaste dos lusitanos, Que inda o são, victorias mil, Desde os godos e romanos, E depois do mouro hostil, E dos lusos soberanos Cantaste o ardor varonil:

Que d'Africa avassalaram Terras tantas com saber, E com valor alcançaram Seus dominios estender, Descobrindo subjeitaram Novo mundo ao seu poder!

Mas hoje lamentarias Um progresso ardente e vão! Quantas colonias verias Onde não fulge o pendão, Que aos povos e monarchias Deu riqueza e galardão!

Por nova estrada avançando Tornaras a ver Suez, E o mar Erithreu passando Distante o Sinay lá ves, Meca, o nome recordando Do teu solo portugues.

Os vergeis mais perfumados, A espessura de Ceilão, Sincapura e os festejados Lindos jardins de Pinão; No commercio exercitados Os povos sem instrucção!

Viras povo sem cultura Succumbindo ao jugo inglez, Foi tão outro na ventura Sob o mando portuguez! Quadro de tanta amargura Não vejamos outra vez!

Suspenderias a lyra Que o ceu de estrellas c'rôou, Sentindo que inda respira Um ecco, e os ais acordou Na Gruta, que outr'ora ouvira Teu canto que a eternisou!

E soltaras um gemido, Em vez de etherea canção, Vendo o teu Jau esquecido No glorioso padrão, Que ao teu nome esclarecido Erige a lusa nação!...

·

·

No grandioso quadro do universo, As vindoiras idades meditando, O sublime padrão escripto em verso, Contemplem, qual pharol que as vae salvando, Do escuro e fundo abysmo, onde submerso Jaz o mundo sem luz abrolhos dando! No clarim hão de ouvir de eterna fama, Portugal e Camões! — o Oriente e o Gama!

Não só a historia acclama os feitos do excellente Que, as quinas arvorando, a lua supplantou: Diz Africa, João, Manuel diz o Oriente: Conquistas de alem mar a fama eternisou!

Descobre ousado Henrique, atravessando os mares Occultas regiões; passou o cabo Nam: Da China e do Brazil sonhou ardentes ares, E proseguindo a empreza, eis surge o nobre Cam!

Depois Zarco e Tristão, das ilhas a princeza, Que as aguas tem por solio, e as nuvens por docel;: E do equador além, Cabral completa a empresa. Mostrando um novo imperio ao reino seu fiel!

E mais alto louvor inda te cabe Na historia das nações: Hade teu nome honrar, quem honrar sabe As cinzas de Camões.»

Oh'gloria de mandar, oh! va cobiça D'essa vaidade a que chamamos fama.»

«Oh! gente temerosa não te espantes, Que este dia deitou ao mundo a vida, Mais desgraçada que jamais se viu.

Sem nuvens, sem procellas, que não se erguem Lá onde o Eterno vive!=

«Aquelle cuja Lyra Senorosa Será mais afamado que ditoso.»

Nem só d'Africa, ou Azia, e America poderam Nas plagas esparger das armas o esplendor! Aqui a Hespanha, a Italia e a França já souberam Que o luso povo é heroe nos brios e valor.

Nem só teve os laureis das lides afanosas, Nas armas, e nas lettras, foi grande Portugal; Das artes ostentando as obras primorosas, Se eleva triumphante a estatua sem rival

A foz do Tejo entrae! vereis floridas margens D'altiva capital o solo alcatifar; E Cintra erguida além, por entre as lindas vargens, Aos feilos gloriosos memoria levantar.