Portuguese poem
Hymno Á Vida
by António Joaquim de Castro Feijó (1859–1917)
Tenho-te medo, embora ignoto amor me traga Preso a ti, como o feto ao seio em que germina... Foi por ventura o sol, da espuma d'uma vaga, Ou Deus que te creou d'uma essencia divina?
Que importa? D'onde quer que o teu sorriso veio, Quem quer que sejas,--flôr d'inefavel deleite, D'ódio ou de fel,--és sempre o mesmo augusto seio Em que a Dor e o Prazer bebem o mesmo leite!
Calix do Sacrificio em que os meus labios ponho! --Trazendo o Amor e a Morte a servir-te d'escolta,-- Deste ao mundo o licôr do seu primeiro sonho, O vinho e a embriaguez da primeira revolta!
Sobes do prado em flor, desces dos altos cumes, Na immarcessivel luz que os orbes incendeia; Passas no largo vento a derramar perfumes, Choras no vasto oceano a rebentar na areia!
O teu Genio, que o barro amolda e purifica, Enleva os corações de jubilo e transporte, Se no Esqueleto exhibe a tunica mais rica, Se em Belleza sorri na máscara da Morte:
Teu segredo, que em sangue e lagrimas se envolve, Mais obscuro se faz quanto mais o investigo; --Sôpro que tudo cria e que tudo dissolve, Força occulta, mysterio augusto, eu te bemdigo!
Se, ousado, alguem buscando a tua ignota origem, O abysmo a perscrutar sobre ti se debruça, Da treva apenas sae, dissipada a vertigem, Um immenso clamor que blasphema e soluça!
És o raio de sol, a tempestade e o vento; Vôo d'ave a cantar na floresta orvalhada; Ancia no coração, lava no pensamento, O Amor e o Odio, o Bem e o Mal,--és Tudo e és Nada!
Mão potente, que a rocha endurecida escarva, Tornando-a em fragil pó d'onde rebentam flores; Fada occulta que tece o casulo da larva E aos insectos iria as asas de esplendores...
Beijo d'onde a traição como um veneno escorre; Riso que se desfaz num amargo travor; Larga estrada sem fim que a Ventura percorre, Como um cego a cantar pelo braço da Dor!
Quem quer que sejas,--tudo ou nada,--eu te bemdigo! Pelo esforço immortal da tua heroica belleza, Que, no revolto chão do soffrimento antigo, Deixou tantos padrões e tropheus de grandeza!
Se a alguem o teu mysterio a Esphinge revelasse, Talvez nunca, a rolar dos planaltos risonhos, A onda humana através da historia se lançasse, Erguendo cathedraes e accumulando sonhos!
Por isso eu te bemdigo, Alma que enches o Mundo! Occulto coração, graça, illusão suprema! Se tudo vem de ti, d'esse enygma profundo, --A solução que importa? O que é grande é o problema!...