Portuguese poem
Da pulga e mosquito
by António Marques Lésbio (1639–1709)
Mandam-me que em um romance descreva qual mais me enfada, se um mosquito sacabuxa, se uma pulga secretária.
Dizer de sua justiça aos delinquentes se manda, mas dizer dos delinquentes só a mim se me mandara.
Muitos dizem o que entendem, e a fé que não dizem nada, porém eu digo o que sinto, e disto sei o que basta.
Melpómene se alguma hora andaram nas tuas abas, ou de pulgas a caterva, ou dos mosquitos a praga.
Dá-me uma veia picante, porém não veia picada, que de chanças estar quero com quem já estive de chanças.
Mas já contra o meu romance a censura vejo armada, porém se trata de pulgas, que muito que leve unhadas.
Menos me molesta a pulga, pois quando à orelha se agarra, presumo que pode vir do seio de alguma dama.
Que inda que me faça touro, estando à orelha filada, faz o que podem fazer muitas mulheres honradas.
Em solicitar o ouvido é lisonja, e não matraca pois me vem dizer à orelha o que no mundo se passa.
Eu tive na orelha pulga, que me disse cousas tantas, que fiquei como aturdido, dando mil voltas na cama.
Muitos há que em vendo a pulga em a orelha encaixada, como se fosse delito, lhe cospem todos na cara.
Mas eu porque me parece borboleta namorada, a deixo buscar a cera, se é que em minha orelha se acha.
Demais que as prendas da pulga são muito para estimadas, pois se passa em um instante desde Sofala a Cuama.
Quando as orelhas me ocupa, servindo-me de arrecada, me parece que estou feito el-rei de Monomotapa.
De mais que ouvi dizer sempre, que era a pulga abençoada, pois o benzer do pulgão é cousa muito ordinária.
Só uma cousa se nota neste espírito de nácar, que tendo sangue cristão, se vá a viver na Holanda.
Porém é tão advertida, porém é tão recatada, que logo se faz vermelha em lhe descobrindo as faltas.
Mas o tremendo mosquito, cupido cruel das caras, disfarçado alfange em nihil, raio revestido em nada,
Me atormenta mais que tudo, e mais que tudo me enfada, pois é todo delasado, quando parece ter asa.
Quando este me solicita, então me ofende, e me agrava, pois presume sou a pipa da presidência passada.
Falsete quase invisível, que facistol faz das caras, e cantando com bom pico, com bem pouca graça canta.
Este que quando me ofende, é com tal arte e tal traça, que em vez de vingar-me dele, tomo em mi mesmo a vingança.
Este ceitil dos viventes, este dos bichos balala, que qualquer picada sua não custa caro, mas cara,
É campana de Belilha, pois em tocando a campana anuncia mil desdichas, prognostica mil desgraças.
Vejam pois se direi mal do mosquito com tais causas, ou se da pulga, que enfim dorme comigo na cama.