Versos Portuguese Camilo Castelo Branco Ministro

Portuguese poem

Ministro

by (1825–1890)

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(Só).

Á vista disto, não ha mais fugir-lhe... Pouco me serve... mas é pobre moço!.. Fazem-me pena quando assim os vejo... Não ha remedio senão dar-lhe um osso.

A D. EUSEBIA DA ASSUMPÇÃO,

ALMA DE VACA.

Noitebó que esvoaçaste No meu ceo d'alva illusão; E na chaminé pousaste Deste ardente coração; Que mal te fiz, pulga d'alma, Que mordes, sem compaixão?

Dona Eusebia, gança amada, Que picaste a minha flor, Tão do intimo orvalhada Pelos prantos desta dôr, Dona Eusebia não me piques Esta alcachofra d'amor!

Gata brava, não me bufes Esta luz d'aspiração; Por quem és, tu não me atufes Dona Eusebia d'Assumpção, Nos abysmos insondaveis D'assanhada ingratidão!

Tu chamaste-me pangaio, Quando eu quiz um riso teu! Fulminou-me um impio raio, Minha aspiração morreu! Ai! Natercia de chinelos, Serei eu pangaio? eu!!

Tens no peito ingrata, um chato Coração de melancia. Tanto tempo fui teu gato, Gato d'amor e poesia! Dona Eusebia, alma de vaca, Morras tu de hydropesia!

AS LITTERATAS.

Paes de familia, hybridos caturras, Escrevo para vós! Se tendes filhas Com sestro massador de fazer versos, Dai-lhes p'ra baixo, como eu dou nas minhas!

Eu vejo serigaitas, mal lavadas Do almiscar infantil de seus cueiros, Fazerem relaçoens c'os raios pallidos, Da estrella matinal, do lago lympido, Das auras ciciantes, e da aragem, E d'outras semelhantes trampolinas, Que vós não entendeis, nem eu, nem ellas.

Espevitam-se todas estas gaitas Da musa melancolica das noutes. Mal sabem onde tem a mão direita, Não viram do nariz um palmo adiante, E fallam de paixoens intimas d'alma, De crenças desbotadas, e de flores Fanadas ao soprar da leda infancia.

Acaso comprehendeis, paes de familia, Da nova geração destas piegas A triste chiadeira que nos fazem? Dai-lhes p'ra baixo como eu dou nas minhas!

Não tendes uns fundilhos nas cilouras? Não tendes roto o calcanhar da piuga? Não tendes uma estriga, um fuso, e roca? Mandai-as trabalhar; dai-lhe a sciencia Precisa para o rol da roupa suja. Se lhe virdes romance, ou essas cousas Chamadas folhetins, sobre a toilette, (A toilette, meu Deus! por causa d'ellas Perverteu-se a dicção do nosso Barros!) Dai-lhes p'ra baixo como eu dou nas minhas!

Quem é o parvo que espozar-se queira Com litterata alambicada e chocha? Sentada n'um sophá, sapho saloia, Em languida postura requebrada, Se eu visse a minha Antonia! ai que panasio, Que revez de careca eu lhe pregava!

Paes de familia! não achaes bem triste Entrar um cidadão em sua casa, Cansado de lavrar o pão da vida, E vêr sua mulher repotreada Na othomana gentil, lendo romances? Pobre marido quer fallar d'uns frangos Que baratos comprou, e a litterata Pergunta-lhe se leu Kossuth e os hungaros! O parvo franze a testa aborrecido, Procura entre os lençoes um refrigerio; Mas, no excesso da dôr, rasga as cilouras, E no mundo não tem mulher ou anjo Que lh'as saiba coser!.. ai do mesquinho!

Onze horas já são. O bom do homem Tres vezes já pediu café com leite, Apertam-no negocios; mas em balde Pediu com desespero o tardo almoço.

A litterata esposa inda ressona, Pois vira despontar a estrella d'alva Nos rubros arreboes dos horisontes, E, inspirada, fizera quatro quadras, Ardentes de ideal romantecismo.

«Café com leite!» brada em vão tres vezes, O bode expiatorio dos romances... «Café com leite» os eccos lhe respondem, Que a Stael d'agua doce inda ressona!

Maridos imbecis! eu vos lamento! A culpa não foi vossa! Aos pais a imputo.

Madame Podestá dizem que ensina Grammatica, rethorica, hidraulica, Mecanica, gymnastica, estetica, E chymica, e botanica, e plastica, O arabe, o sanskrit, a geographia, A prosodia, a syntaxe, industria e canones, E muitas cousas mais, como th'rapeutica.

Será tudo mui bom; mas eu aposto Que o remate de tantas luzes juntas É capaz de fazer perfeitas tolas As muitas que lá vão com seu Juizo! Paes de familia! tendes filhas d'estas? Dai-lhes p'ra baixo, como eu dou nas minhas!

Um pai eu conheci, que nunca soube O seu nome escrever sem quatro asneiras, E mandou ensinar francez á filha. A filha conseguiu, passados annos, Uma cousa fallar mui duvidosa Que os francezes, talvez, diriam tartaro! Mas seria francez, o caso é este:

Um dia estava o pai, e ella, e um outro Janota almiscarado, conversando. De improviso a menina a lingua solta Em barbaros grasnidos que atarantam A cabeça do velho. O «petimetre» Responde em algarvia semelhante. O pai, no centro delles, era um parvo Gemendo sob o peso do ridiculo... Mas lá vai o peor do caso infausto! Ao dar da meia noute desse dia Cumpria-se a promessa contratada Na presença d'um pai, que bem podera Embargos de terceiro inda intentar Se fosse em portuguez organisada A injusta petição do supplicante.

Pais de familia, vossas filhas fallam Italiano, francez, gallego, ou turco? Dai-lhes p'ra baixo como eu dou nas minhas.