Portuguese poem
O Cão do Louvre
by Casimir Delavigne (1793–1843)
Tu que passas, descobre-te! Alli dorme O forte que morreu. Dá ao martyr do Louvre algumas flores; Dá pão ao seu lebreu. Da batalha era o dia. O canhão troa: E o livre corre á morte, e juncto delle O seu cão vae: A mesma bala ambos feriu: o martyr Não deploreis: o amigo seu que vive Só pranteae! Tristonho, sobre o forte elle se inclina, Affagando-o e gemendo; e a ver se acorda Põe-se a latir;
E do seu companheiro no combate Sobre o cadaver sanguinoso o pranto Deixa cahir. Essa gleba guardando onde repousam As cinzas dos heroes, nada o consola No seu gemer; E ao que o ameiga triste repellindo, «Oh, que não és meu dono!―o cão parece Tentar dizer. Quando sobre as grinaldas de perpetuas O matutino alvor da aurora o orvalho Faz scintillar, Os olhos abre vívidos, e pula Para affagar seu dono, que elle pensa Ha-de voltar! Quando da noite a viração as c'roas Fez ranger sobre a cruz do monumento, Desanimou: Elle quizera que seu dono o ouvisse; E ladra e uiva; mas o adeus de á noite Lá lhe faltou! O inverno chega, e a neve, com violencia, Cái, e branqueia, e esconde esse gelado Leito de morte: Ei-lo que sólta um lugubre gemido,
E busca, alli deitando-se, ampara-lo Do frio norte. Antes que os membros lhe entorpeça o somno, Mil tentativas para erguer a campa Inuteis faz: Depois comsigo diz, como hontem disse, ―Quando acordar, por certo, ha-de chamar-me.» E dorme em paz. Mas, na alta noite, em sonhos vê trincheiras, E seu dono entre as balas encontradas Cahir ferido: E ouve-o que o chama com sibillo usado; E ergue-se e corre após uma van sombra, Dando um bramido. É alli que elle espera horas e horas, E saudoso murmura: alli pranteia, E morrerá. O seu nome qual é? Todos o ignoram. O que o sabía, o dono seu querido, Nunca o dirá!.. Tu que passas, descobre-te! Além dorme O forte que morreu. Dá ao martyr do Louvre algumas flores, E esmola ao seu lebreu.