Versos Portuguese Casimiro de Abreu Dores

Portuguese poem

Dores

by (1839–1860)

Listen in the reader

Há dores fundas, agonias lentas, Dramas pungentes que ninguém consola, Ou suspeita sequer! Mágoas maiores do que a dor dum dia, Do que a morte bebida em taça morna De lábios de mulher!

Doces falas de amor que o vento espalha. Juras sentidas de constância eterna Quebradas ao nascer; Perfídia e olvido de passados beijos... São dores essas que o tempo cicatriza Dos anos no volver.

Se a donzela infiel nos rasga as folhas Do livro d'alma, magoado e triste Suspira o coração; Mas depois outros olhos nos cativam, E loucos vamos em delírios novos Arder noutra paixão.

Amor é ó rio claro das delícias Que atravessa o deserto, a veiga, o prado, E o mundo todo o tem! Que importa ao viajor que a sede abrasa, Que quer banhar-se nessas águas claras, Ser aqui ou além?

A veia corre, a fonte não se estanca, E as verdes margens não se crestam nunca Na calma dos verões; Ou quer na primavera, ou quer no inverno, No doce anseio do bulir das ondas Palpitam corações.

Não! a dor sem cura, a dor que mata, É, moço ainda, aperceber na mente A dúvida a sorrir! É a perda dura dum futuro inteiro E o desfolhar sentido das sentis coroas, Dos sonhos do porvir!

É ver que nos arrancam uma a uma Das asas do talento as penas de ouro, Que voam para Deus! É ver que nos apagam d'alma as crenças E que profanam o que santo temos Co'o riso dos ateus!

É assistir ao desabar tremendo, Num mesmo dia, d'ilusões douradas, Tão cândidas de fé! É ver sem dó a vocação torcida Por quem devera dar-lhe alento e vida E respeitá-la até!

É viver, flor nascida nas montanhas, Para aclimar-se, apertada numa estufa À falta de ar e luz! É viver, tendo n'alma o desalento, Sem um queixume, a disfarçar as dores Carregando a cruz!

Oh! ninguém sabe como a dor é funda, Quanto pranto s'engole e quanta angústia, A alma nos desfaz! Horas há em que a voz quase blasfema... E o suicídio nos acena ao longe Nas longas saturnais!

Definha-se a existência a pouco e pouco, E ao lábio descorado o riso franco Qual d'antes, já não vem; Um véu nos cobre de mortal tristeza, E a alma em luto, despida dos encantos, Amor nem sonhos tem!

Murcha-se o viço do verdor dos anos, Dorme-se moço e despertamos velho, Sem fogo para amar! E a fronte jovem que o pesar sombreia Vai, reclinada sobre um colo impuro, Dormir no lupanar!

Ergue-se a taça do festim da orgia, Gasta-se a vida em noites de luxúria No leito dos bordéis, E o veneno se sorve a longos tragos Nos seios brancos e nos lábios frios Das lânguidas Frinés!

Esquecimento! - mortalha para as dores - Aqui na terra é a embriaguez do gozo, A febre do prazer: A dor se afoga no fervor dos vinhos, E no regaço das Margôs modernas É doce então morrer!

Depois o mundo diz: - Que libertino! A folgar no delírio dos alcouces As asas empanou! - Como se ele, algoz das esperanças, As crenças infantis e a vida d'alma Não fosse quem matou!...

Oh! há dores tão fundas como o abismo, Dramas pungentes que ninguém consola Ou suspeita sequer! Dores na sombra, sem carícias d'anjo, Sem voz de amigo, sem palavras doces, Sem beijos de mulher!...