Versos Portuguese Casimiro de Abreu Minh'alma é triste

Portuguese poem

Minh'alma é triste

by (1839–1860)

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I Minh'alma é triste como a rola aflita Que o bosque acorda desde o albor da aurora, E em doce arrulo que o soluço imita O morto esposo gemedora chora.

E, como a rola que perdeu o esposo, Minh'alma chora as ilusões perdidas, E no seu livro de fanado gozo Relê as folhas que já foram lidas.

E como notas de chorosa endecha Seu pobre canto com a dor desmaia, E seus gemidos são iguais à queixa Que a vaga solta quando beija a praia.

Como a criança que banhada em prantos Procura o brinco que levou-lhe o rio, Minh'alma quer ressuscitar nos cantos Um só dos lírios que murchou o estio.

Dizem que há gozos nas mundanas galas, Mas eu não sei em que o prazer consiste. - Ou só no campo, ou no rumor das salas, Não sei porque - mas a minh'alma é triste!

II Minh'alma é triste como a voz do sino Carpindo o morto sobre a laje fria; E doce e grave qual no templo um hino, Ou como a prece ao desmaiar do dia.

Se passa um bote com as velas soltas, Minh'alma o segue n'amplidão dos mares; E longas horas acompanha as voltas Das andorinhas recortando os ares.

Às vezes, louca, num cismar perdida, Minh'alma triste vai vagando à toa, Bem como a folha que do sul batida Bóia nas águas de gentil lagoa!

E como a rola que em sentida queixa O bosque acorda desde o albor da aurora, Minh'alma em notas de chorosa endecha Lamenta os sonhos que já tive outrora.

Dizem que há gozos no correr dos anos!... Só eu não sei em que o prazer consiste. - Pobre ludíbrio de cruéis enganos, Perdi os risos - a minh'alma é triste!

III Minh'alma é triste como a flor que morre Pendida à beira do riacho ingrato; Nem beijos dá-lhe a viração que corre, Nem doce canto o sabiá do mato!

E como a flor que solitária pende Sem ter carícias no voar da brisa, Minh'alma murcha, mas ninguém entende Que a pobrezinha só de amor precisa!

Amei outrora com amor bem santo Os negros olhos de gentil donzela, Mas dessa fronte de sublime encanto Outro tirou a virginal capela.

Oh! quantas vezes a prendi nos braços! Que o diga e fale o laranjal florido! Se mão de ferro espedaçou dois laços Ambos choramos mas num só gemido!

Dizem que há gozos no viver d'amores, Só eu não sei em que o prazer consiste! - Eu vejo o mundo na estação das flores... Tudo sorri - mas a minh'alma é triste!

IV Minh'alma é triste como o grito agudo Das arapongas no sertão deserto; E como o nauta sobre o mar sanhudo, Longe da praia que julgou tão perto!

A mocidade no sonhar florida Em mim foi beijo de lasciva virgem: - Pulava o sangue e me fervia a vida, Ardendo a fronte em bacanal vertigem.

De tanto fogo tinha a mente cheia!... No afã da glória me atirei com ânsia... E, perto ou longe, quis beijar a s'reia Que em doce canto me atraiu na infância.

Ai! Loucos sonhos de mancebo ardente! Esp'ranças altas... Ei-las já tão rasas!... - Pombo selvagem, quis voar contente... Feriu-me a bala no bater das asas!

Dizem que há gozos no correr da vida... Só eu não sei em que o prazer consiste! - No amor, na glória, na mundana lida, Foram-se as flores - a minh'alma é triste!