Portuguese poem
Pois tudo tão pouco dura
by Cristóvão Falcão (1512–1557)
Pois tudo tão pouco dura Como o passado prazer, Isso me dá ter ventura Como deixá-la de ter.
Acaba-se com a vida Juntamente o mal e o bem, E quem maior dita tem Tem mais pena da partida. E pois é cousa segura Que tudo fim há de haver, Isso me dá ter ventura Como deixá-la de ter.
Nunca vi contentamento Durar em nenhum estado, E vi dar muito tormento Lembrança do bem passado; Pois magoa e pouco dura A refega do prazer, Isso me dá ter ventura Como deixá-la de ter.
É tão breve em si a vida, Que tudo lhe corresponde, O prazer se nos esconde Ou tem breve despedida. E pois são de pouca dura A vida e o prazer Isso me dá ter ventura Como deixá-la de ter.
A tristeza e o tormento Sempre vi em mim sobejo E não vi contentamento Que não viesse a desejo; Como a vida não é segura E dura pouco o prazer, Isso me dá ter ventura Como deixá-la de ter.
Toda a descrição consiste Em saber homem com cedo Que nenhum prazer faz ledo, Pois o ser da vida é triste. Se a vida não é segura E os gostos não têm ser, Isso me dá ter ventura Como deixá-la de ter.
Estilo da natureza É prazer vir de passada, E o prazer e a tristeza Fazer connosco morada. E pois tão pouco segura É a vida e o prazer, Isso me dá ter ventura Como deixá-la de ter.