Portuguese poem
Embirração
by Faustino Xavier de Novaes (1820–1869)
A balda alexandrina é poço immenso e fundo, Onde poetas mil, flagello deste mundo, Patinham sem parar, chamando lá por mim. Não morrerão, se um verso, estiradinho assim, Da beira fôr do poço, extenso como elle é, Levar-lhes grosso anzol; então eu tenho fé Que volte um afogado, á luz da mocidade, A ver no mundo secco a secca realidade.
Por elles, e por mim, receio, caro amigo; Permitte o desabafo aqui, a sós comtigo, Que á moda fazer guerra, eu sei quanto é fatal;
Nem vence o positivo o frivolo ideal; Despotica em seu mando, é sempre fatua e vã, E até da vã loucura a moda é prima-irmã: Mas quando venha o senso erguer-lhe os densos véus, Do verso alexandrino ha de livrar-nos Deus.
Deus quando abre ao poeta ás portas desta vida, Não lhe depara o gozo e a gloria appetecida; E o triste, se morreu, deixando mal escriptas Em verso alexandrino historias infinitas, Vai ter lá n'outra vida insipido desterro, Se Deus, por compaixão, não dá perdão ao erro; Fechado em quarto escuro, á noite não tem luz, E se é cá do meu gosto o guarda que o conduz, Debalde, immerso em pranto, implora o livramento; Não torna a ser, aqui, das Musas o tormento; Castigo alexandrino, eterna solidão, Terá lá no desterro, em premio da illusão; Verá queimar, á noite, as rosas esfolhadas, Que a moda lhe offertára, e trouxe tão cuidadas, E ao pé do fogo intenso, ardendo em cruas dôres, Verá que versos taes são galhos, não dão flores; Que, lendo-os a pedido, a creatura santa, A paciencia lhe foge, a fé se lhe quebranta,
Se vai d'um verso ao fim; depois... treme... vacilla... Dormindo, cahe no chão; mais tarde, já tranquilla, Sonha com verso-verso, e as illusões floridas, Risonhas, vem mostrar-lhe as largas avenidas Que o longo verso-prosa occulta, do porvir! Sonhando, ao menos, póde amar, gozar, sentir, Que um somno alexandrino a deixa ali em paz, Dormir... dormir... dormir... erguer-se, emfim, vivaz, Bradando: «Chloroformio! O genio que te poz,; A palma cede ao metro esguio, teu algoz!»
E aspiras, vate, assim, da gloria ao ideal? Triste e funesto afan!... tentativa fatal! Nesta sede de luz, nesta fome d'amor, O poeta corre a estrella, á brisa, ao mar, á flor; Quer ver-lhe a luz na luz da estreita peregrina, Quer-lhe o aroma sentir na rosa da campina, Na brisa o doce alento, a voz na voz do mar; Ó inutil esforço! Ó improbo lutar! Em vez da luz, do aroma, ou do alento, ou da voz, O verso alexandrino, o impassivel algoz!...
Não cantas a tristeza, e menos a ventura; Que em vez do sabiá gemendo na espessura, Imitarás, no canto, o grillo atraz do lar;
Mas desse estreito asylo, escuro e recatado, Alegre has de fugir, que erguendo altivo brado, A lyrica harmonia ha de ir-te despertar!
Verás de novo aberta a copiosa fonte! Da poesia verás tão lucido o borisonte, Que a mente não calcula, e onde se perde o olhar, Que nas asas do genio, a voar pelo espaço, Dá perna sacudindo o alexandrino laço, Has de a mão bemdizer que o soube desatar.
Do precipicio foge, e segue a luz secreta, Essa estrella polar dos sonhos do poeta; Mas, n'outro verso, amigo, onde ao mago ideal A musica se ligue, o senso e a verdade; — N'um destes vai-se, a ler, da vida a immensidade Da syllaba primeira á syllaba final!
Meu Deus! Esta existencia é transitoria e passa; Se fraco fui aqui, peccando por desgraça; Se já não tenho jus ao vosso puro amor; Se nem da salvação nutrir posso a esperança, Quero em chammas arder, soffrer toda a provança — Ler verso alexandrino... Oh! isso não, Senhor