Portuguese poem
Aqui está-se sossegado
by Fernando Pessoa (1888–1935)
Aqui está-se sossegado, Longe do mundo e da vida, Cheio de não ter passado, Até o futuro se olvida.
Aqui está-se sossegado. Tinha os gestos inocentes, Seus olhos riam no fundo. Mas invisíveis serpentes
Faziam-a ser do mundo. Tinha os gestos inocentes. Aqui tudo é paz e mar. Que longe a vista se perde
Na solidão a tornar Em sombra o azul que é verde! Aqui tudo é paz e mar. Sim, poderia ter sido...
Mas vontade nem razão O mundo têm conduzido A prazer ou conclusão. Sim, poderia ter sido...
Agora não esqueço e sonho. Fecho os olhos, oiço o mar E de ouvi-lo bem, suponho Que veio azul a esverdear.
Agora não esqueço e sonho. Não foi propósito, não. Os seus gestos inocentes Tocavam no coração
Como invisíveis serpentes. Não foi propósito, não. Durmo, desperto e sozinho. Que tem sido a minha vida?
Velas de inútil moinho — Um movimento sem lida... Durmo, desperto e sozinho. Nada explica nem consola.
Tudo está certo depois. Mas a dor que nos desola, A mágoa de um não ser dois Nada explica nem consola.