Portuguese poem
Dá-me as mãos por brincadeira
by Fernando Pessoa (1888–1935)
Dá-me as mãos por brincadeira Na dança que não dançamos, Porque isso é uma maneira De dizer o que pensamos.
Dá-me as mãos e sorri alto, A vigiar o que rio, Bem sabes que assim já falto A pensar coisas a fio.
Não quero largar as mãos Assim dadas por brinquedo. Deixa-as ficar: há irmãos Que brincam assim a medo.
Não largues, ou faz demora A arrastar, a demorar, As mãos pelas minhas fora, E já deixando de olhar.
Que segredos num contacto! Que coisas diz quem não fala! Que boa vista a do tacto Quando a vista desiguala!
Deixa os dedos, deixa os dedos, Deixa-os ainda dizer Aqueles dos teus segredos Que não podes prometer!
Deixa-me os dedos e a vida! Os outros dançam no chão, E eu tenho a alma esquecida Dentro do teu coração.
Todo o teu corpo está dado Nas tuas mãos que retenho. Mais vale ter enganado Do que ter porque não tenho.