Portuguese poem
Depois que o som da terra, que é não tê-lo
by Fernando Pessoa (1888–1935)
Depois que o som da terra, que é não tê-lo, Passou, nuvem obscura, sobre o vale E uma brisa afastando meu cabelo Me diz que fale, ou me diz que cale, A nova claridade veio, e o sol Depois, ele mesmo, e tudo era verdade, Mas quem me deu sentir e a sua prole? Quem me vendeu nas hastas da vontade? Nada. Uma nova obliquação da luz, Interregno factício onde a erva esfria. E o pensamento inútil se conduz Até saber que nada vale ou pesa. E não sei se isto me ensimesma ou alheia, Nem sei se é alegria ou se é tristeza.