Versos Portuguese Fernando Pessoa Manucure

Portuguese poem

Manucure

by (1888–1935)

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Na sensação de estar polindo as minhas unhas, Subita sensação inexplicavel de ternura, Todo me incluo em Mim--piedosamente. Emtanto eis-me sózinho no Café: De manhã, como sempre, em bocejos amarelos. De volta, as mesas apenas--ingratas E duras, esquinadas na sua desgraciosidade Boçal, quadrangular e livre-pensadora... Fóra: dia de Maio em luz E sol--dia brutal, provinciano e democrático Que os meus olhos delicados, refinados, esguios e citadinos Não podem tolerar--e apenas forçados Suportam em nauseas. Toda a minha sensibilidade Se ofende com este dia que ha de ter cantores Entre os amigos com quem ando ás vezes-- Trigueiros, naturais, de bigodes fartos-- Que escrevem, mas têem partido politico E assistem a congressos republicanos, Vão ás mulheres, gostam de vinho tinto, De peros ou de sardinhas fritas...

E eu sempre na sensação de polir as minhas unhas E de as pintar com um verniz parisiense, Vou-me mais e mais enternecendo Até chorar por Mim... Mil côres no Ar, mil vibrações latejantes, Brumosos planos desviados Abatendo flexas, listas volúveis, discos flexiveis, Chegam tenuemente a perfilar-me Toda a ternura que eu pudera ter vivido, Toda a grandeza que eu pudera ter sentido, Todos os scenarios que entretanto Fui... Eis como, pouco a pouco, se me fóca A obsessão débil dum sorriso Que espelhos vagos reflectiram... Leve inflexão a sinusar... Fino arrepio cristalisado... Inatingivel deslocamento... Veloz faúlha atmosférica...

E tudo, tudo assim me é conduzido no espaço Por innumeras intersecções de planos Multiplos, livres, resvalantes.

É lá, no grande Espelho de fantasmas Que ondula e se entregolfa todo o meu passado, Se desmorona o meu presente, E o meu futuro é já poeira... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Deponho então as minhas limas, As minhas tesouras, os meus godets de verniz, Os polidores da minha sensação-- E solto meus olhos a enlouquecerem de Ar! Oh! poder exaurir tudo quanto nêle se incrusta, Varar a sua Beleza--sem suporte, emfim!-- Cantar o que êle revolve, e amolda, impregna, Alastra e expande em vibrações: Subtilisado, sucessivo--perpétuo ao Infinito!... Que calótes suspensas entre ogivas de ruínas, Que triangulos sólidos pelas naves partidos! Que hélices atrás dum vôo vertical! Que esferas graciosas sucedendo a uma bola de ténnis!-- Que loiras oscilações se ri a bôca da jogadora... Que grinaldas vermelhas, que léques, se a dançarina russa, Meia-nua, agita as mãos pintadas da Salomé Num grande palco a Ouro! --Que rendas outros bailados!

Ah! mas que inflexões de precipicio, estridentes, cegantes, Que vertices brutais a divergir, a ranger, Se facas de apache se entrecruzam Altas madrugadas frias...

E pelas estações e cais de embarque, Os grandes caixotes acumulados, As malas, os fardos--pêle-mêle... Tudo inserto em Ar, Afeiçoado por êle, separado por êle Em multiplos intersticios Por onde eu sinto a minh'Alma a divagar!...

--Ó beleza futurista das mercadorias!

--Sarapilheira dos fardos, Como eu quisera togar-me de Ti! --Madeira dos caixotes, Como eu anseara cravar os dentes em Ti! E os pregos, as cordas, os aros...-- Mas, acima de tudo, como bailam faiscantes A meus olhos audazes de beleza, As inscrições de todos esses fardos-- Negras, vermelhas, azuis ou verdes-- Gritos de actual e Comercio & Industria Em transito cosmopolita: