Versos Portuguese Fernando Pessoa Nas Praças

Portuguese poem

Nas Praças

by (1888–1935)

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Nas praças vindouras — talvez as mesmas que as nossas — Que elixires serão apregoados? Com rótulos diferentes, os mesmos do Egito dos Faraós; Com outros processos de os fazer comprar, os que já são nossos.

E as metafisicas perdidas nos cantos dos cafés de toda a parte, As filosofias solitárias de tanta trapeira de falhado, As idéias casuais de tanto casual, as intuições de tanto ninguém — Um dia talvez, em fluido abstrato, e substância implausível, Formem um Deus, e ocupem o mundo. Mas a mim, hoje, a mim Não há sossego de pensar nas propriedades das coisas, Nos destinos que não desvendo, Na minha própria metafisica, que tenho porque penso e sinto

Não há sossego, E os grandes montes ao sol têm-no tão nitidamente!

Têm-no? Os montes ao sol não têm coisa nenhuma do espírito. Não seriam montes, não estariam ao sol, se o tivessem.

O cansaço de pensar, indo até ao fundo de existir, Faz-me velho desde antes de ontem com um frio até no corpo.

E por que é que há propósitos mortos e sonhos sem razão? Nos dias de chuva lenta, contínua, monótona, uma, Custa-me levantar-me da cadeira onde não dei por me ter sentado, E o universo é absolutamente oco em torno de mim.

O tédio que chega a constituir nossos ossos encharcou-me o ser, E a memória de qualquer coisa de que me não lembro esfria-me a alma. Sem dúvida que as ilhas dos mares do sul têm possibilidades para o sonho, E que os areais dos desertos todos compensam um pouco a imaginação; Mas no meu coração sem mares nem desertos nem ilhas sinto eu, Na minha alma vazia estou, E narro-me prolixamente sem sentido, como se um parvo estivesse com febre. Fúria fria do destino, Interseção de tudo, Confusão das coisas com as suas causas e os seus efeitos, Conseqüência de ter corpo e alma, E o som da chuva chega até eu ser, e é escuro.