Versos Portuguese Fernando Pessoa Quando ela passa

Portuguese poem

Quando ela passa

by (1888–1935)

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Quando eu me sento à janela P'los vidros qu'a neve embaça Vejo a doce imagem d'elia Quando passa... passa.... passa...

N'esta escuridão tristonha Duma travessa sombria Quando aparece risonha Brilha mais qu'a luz do dia.

Quando está noite ceifada E contemplo imagem sua Que rompe a treva fechada Como um reflexo da lua,

Penso ver o seu semblante Com funda melancolia Qu'o lábio embriagante Não conheceu a alegria

E vejo curvado à dor Todo o seu primeiro encanto Comunica-mo o palor As faces, aos olhos pranto.

Todos os dias passava Por aquela estreita rua E o palor que m'aterrava Cada vez mais s'acentua

Um dia já não passou O outro também já não A sua ausência cavou Ferida no meu coração

Na manhã do outro dia Com o olhar amortecido Fúnebre cortejo via E o coração dolorido

Lançou-me em pesar profundo Lançou-me a mágoa seu véu: Menos um ser n'este mundo E mais um anjo no céu.

Depois o carro funério Esse carro d'amargura Entrou lá no cemitério Eis ali a sepultura:

Epitáfio.

Cristãos! Aqui jaz no pó da sepultura Uma jovem filha da melancolia O seu viver foi repleto d'amargura Seu rir foi pranto, dor sua alegria.

Quando eu me sento à janela P'los vidros qu'a neve embaça Julgo ver imagem dela Que já não passa... não passa.