Portuguese poem
Só
by Fernando Pessoa (1888–1935)
O mar da minha vida não tem longes. É tudo água só! E o horisonte Funde-se no céu. Por sobre a ponte Marcha sinistra a procissão dos monges.
Velas accêsas, opas, ladainha, E o rio deslisando para o mar, E e as raparigas veem á tardinha Buscar á fonte a água sem cantar.
Ermida branca sobre o monte. Nossa Senhora da Paz...
Peregrino voltei sem ser ouvido. Rasguei os meus pés pelo caminho ido. Ai, a calma de tudo quanto jaz No frio esquecimento! Sobre a ponte A procissão caminha. Sob o arco Singrou sereno um barco A caminho do mar. Ó perdida visão da minha Ansia! Vejo-me só na lugubre distancia, Cadaver dos meus sonhos a boiar.
Lisboa--1914.