Portuguese poem
Ja não posso ser contente
by Francisco de Sá de Meneses (1600–1664)
Mote
JA não posso ser contente: Tenho a esperança perdida! Ando perdido entre a gente; Nem morro, nem tenho vida.
Glosa
A tudo quanto desejo Acho atalhadas as vias; Em tentos e fantasias Mui mao caminho me vejo.
Se do passado e presente O porvir se pode crer, Ja não ha que pretender: Ja não posso ser contente.
Que de tudo quanto quero Chego a tam triste estremo Que vejo tudo o que temo E nem sombra do que espero. Desengano-me da vida E fiz nella tal mudança Que até de ter esperança Tenho a esperança perdida.
Cuidei um tempo que havia Na fortuna o que buscava, E postoque o não dava, O mesmo tempo o daria. Achei tudo diferente, Fiquei desencaminhado, E como em despovoado, Ando perdido entre a gente.
De que farei fundamento Pois em nada acho firmeza E pago sempre em tristeza Os sonhos do pensamento? Abrande esta dôr crecida Vivendo em pena de morte, E eu, por não mudar a sorte, Nem morro nem tenho vida.