Versos Portuguese Friedrich Schiller Os deoses da Grecia

Portuguese poem

Os deoses da Grecia

by (1759–1805)

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Quando, co' os tenues vinculos de gozo, O' Venus de Amathonte, governavas Felices raças, encantados povos Dos fabulosos tempos;

Quando fulgia a pompa do teu culto, E o templo ornavão delicadas rosas,

Ai! quão diverso o mundo apresentava A face aberta em risos!

Na poesia envolvia-se a verdade; Plena vida gozava a terra inteira; E o que jamais hão de sentir na vida Então sentião homens.

Lei era repousar no amor; os olhos Nos namorados olhos se encontravão; Espalhava-se em toda a natureza Um vestigio divino.

Onde hoje dizem que se prende um globo Cheio de fogo, — outrora conduzia Helios o carro de ouro, e os fustigados Cavallos espumantes.

Povoavão Orcades os montes, No arvoredo Doriades vivia, E agreste espuma despejava em flocos A urna das Danaides.

Refugio de uma nympha era o loureiro; Tantalia moça as rochas habitava;

Suspiravão no arbusto e no canniço Syrinx, Philomela.

Cada ribeiro as lagrimas colhia De Ceres pela esquiva Persephone; E do outeiro chamava inutilmente Venus o amado amante.

Entre as raças que o pio thessaliano Das pedras arrancou, — os deoses vinhão; Por captivar uns namorados olhos Apollo pastoreava.

Vinculo brando então o amor lançava Entre os homens, heróes e os deoses todos; Eterno culto ao teu poder rendião, Ó deosa de Amathonte!

Jejuns austeros, torva gravidade Banidos erão dos festivos templos; Que os venturosos deoses só amavão Os animos alegres.

Só a belleza era sagrada outr'ora; Quando a pudica Thiemone mandava,

Nenhum dos gozos que o mortal respira Envergonhava os deoses.

Erão ricos palacios vossos templos; Lutas de heróes, festins e o carro e a ode, Erão da raça humana aos deoses vivos A jocunda homenagem.

Saltava a dansa alegre em torno a altares; Louros c'roavão numes; e as capellas De abertas, frescas rosas, lhes cingião A fronte perfumada.

Annunciava o galhofeiro Baccho O tyrso de Evohé; satyros fulvos Ião tripudiando em seu caminho; Ião bailando as Menades.

A dansa revelava o ardor do vinho; De mão em mão corria a taça ardente, Pois que ao fervor dos animos convida A face rubra do hospede.

Nenhum espectro hediondo ia sentar-se Ao pé do moribundo. O extremo alento

Escapava n'um osculo, e voltava Um genio a tocha extincta,

E além da vida, nos infernos, era Um filho de mortal quem sustentava A severa balança; e co'a voz pia Vate ameigava as Furias.

Nos Elyseos o amigo achava o amigo; Fiel esposa ia encontrar o esposo; No perdido caminho o carro entrava Do destro automedonte.

Continuava o poeta o antigo canto; Admetp achava os osculos de Alceste; Reconhecia Pylades o socio, E o rei thessalio as flechas.

Nobre premio o valor retribuia Do que andava nas sendas da virtude; Acções dignas do céo, filhas dos homens, O céo tinhão por paga.

Inclinavão-se os deoses ante aquelle Que ia buscar-lhe algum mortal extincto;

E os gemeos lá no Olympo alumiavão O caminho ao piloto.

Onde és, mundo de risos e prazeres? Porque não volves, florescente idade? Só a poeira conserva os teus divinos Vestigios fabulosos.

Tristes e mudos vejo os campos todos; Nenhuma divindade aos olhos surge; D'essas imagens vivas e formosas Só a sombra nos resta.

Do norte ao sopro frio e melancolico, Uma por uma, as flôres se esfolhárão; E d'esse mundo rutilo e divino Outro colheu despojos.

Os astros interrogo com tristeza, Seleno, e não te encontro; á selva fallo, Fallo á vaga do mar, e á vaga, e á selva, Inuteis vozes mando.

Da antiga divindade despojada, Sem conhecer os extasis que inspira,

D'esse esplendor que eterno a fronte lhe orna Não sabe a natureza.

Nada sente, não goza do meu gozo; Insensivel á força com que impera, O pendulo parece condemnado Ás frias leis que o regem.

Para se renovar, abre hoje a campa, Forão-se os numes ao paiz dos vates; Das roupas infantis despida, a terra Inuteis os rejeita.

Forão-se os numes, forão-se; levárão Comsigo o bello, e o grande, e as vivas côres, Tudo que outr'ora a vida alimentava, Tudo que é hoje extincto.

Ao diluvio dos tempos escapando, Nos recessos do Pindo se entranhárão: O que soffreu na vida eterna morte, Immortalise a musa!