Portuguese poem
Eu que tenho no olhar
Eu que tenho no olhar o incoercível dente que aguilhoa da carne os sonhos bestiais, e tenho as atrações nervosas da serpente com que Jeová tentou nossos primeiros pais;
eu, a mulher perdida, a cínica indolente, a torpe barregã de olhos sentimentais, que ando de mão em mão escandalosamente como as cartas de jogo e os livros sensuais;
eu, negra flor do mal, silenciosa e calma, que cheguei a ter escrófulas na alma e abri um lupanar dentro do coração;
ao ver teu olhar, o teu olhar sombrio, ó canalha gentil, ó pálido vadio, eu, que desprezo o amor, amo-te, D. João!