Portuguese poem
Santa Simplicidade
by Guilherme Avelino Chave de Azevedo
Na serena missão de paz que tu cumpriste Ó suave Jesus, ó doce galileu, Que santa singeleza e que perfume triste Do teu casto perfil no mundo rescendeu!
Havia no teu verbo aquella unção divina Que a velha harpa de Job soltou nas solidões, E o bello, o puro sol da antiga Palestina Suave contornou, de luz, tuas feições!
Compunham-te o cortejo uns pobres pescadores Almas rectas e sãs; marchavas por teu pé, E sorrias falando aos rudes e aos pastores, Sentado nos portaes da pobre Nazareth.
Da tua Galiléa os valles percorrias Levando um bom quinhão d'affecto a cada lar, E o grande olhar suave e terno das judias Turbaste muita vez, de certo, sem pensar!
E mais simples na morte, apenas a tua alma Transpunha as regiões purissimas do sol, Tu que havias colhido a immorredoura palma Não tinhas para o corpo as gallas d'um lençol!
Consola-te ó Jesus! Tu deves já ter visto Que sobre a terra, agora, ao teu nome fieis, Os que se dizem ser apostolos de Christo Não precisam trajar os infimos bureis.
Não maceram seus pés! não vão pobres e rotos Envoltos na estamenha, apedrejados, sós, Nos desertos viver de mel e gafanhotos, Convertendo o gentio ao som da sua voz.
Ante elles, ao contrario, alargam-se os batentes Dos palacios reaes, nas grandes recepções, E formam-lhes cortejo os coches reluzentes Atraz dos quaes se bate um trote d'esquadrões!
Cobrindo-lhes, depois, d'insignias as roupetas, Afim d'honrar melhor a primitiva fé, Redobram-se ainda mais as velhas etiquetas; Polvilham-se melhor os homens da libré!
E dão-se-lhes festins onde ha grandes baixellas, Fataes scintillações de vinhos e rubins, Gargantas ideaes, grandes espaduas bellas, Lampejos de cristaes, insidias de setins!
Oh! temo bem Jesus que tantas pedrarias Façam peso de mais na barca do Senhor, Quando é certo que as mãos de Pedro um pouco frias Mal podem segurar o leme salvador!
Por isso quando avisto o espaço que negreja E o mar que se encapella, eu temo que ámanhã Do fendido baixel da tua velha Egreja Apenas reste, á prôa, uma ficção pagã!