Portuguese poem
Duas estrelas
by João Correia Manuel Aboim (1814–1861)
No céu recamado de luzes sem fim Tenho uma luzinha, que um anjo me deu: Librada no espaço, distante de mim, Ha outra, que é delle, tam triste, como eu.
Nas horas mais tardas das noites d’estio, Eu vi as luzinhas, ouvi-as fallar; D’anil entre as aguas do patrio meu rio Seu fogo mil vezes lhes vi retratar.
De noite, nas fragas lascadas dos mares, Senti a tormenta na rocha bramir; Fitei os meus olhos n’um céu de safiras E a estrella eu vi delle p’ra mim a sorrir.
Seu fogo divino, que assim m’inspirava, Por vezes brilhante nos céus fulgurou; Mas nuvem maldita que os ares toldava P’ra sempre a meus olhos seu fogo occultou.
Vaguei depois disso nos campos sósinho, Nem mais vi a estrella que anjo me deu; Sentei-me nas rochas, andei sobre mares Fugiu-me dos olhos, perdida no céu.
Perdi nesta vida viver inspirado, Findou-me de vate celeste condão, O mundo bradou-me com bafo gellado Na terra que habitas é tudo illusão.