Portuguese poem
Juizo critico
by João Manuel Pereira da Silva (1817–1898)
Porque se me extasia a mente às vezes, E vaga, e vaga, alígera e perdida Pelas soidões do Armamento etéreo, Bem como o serafim, que esguarda os mundos, Livre os celestes paramos percorre? Porque penetra, às vezes arrojada, Nos mistérios recônditos do eterno, E toda entorna-se a seus pés, - bem como O alabastro de nardo aos pés do Cristo? Porque se abraça em incorpóreo amplexo Co'os angélicos seres de além-astros, E, como as chaves das eternas portas, Abre os tesouros do poder do Altíssimo, E neles bebe inexauríveis gozos?
Gosto de meditar, de noite, às vezes, Como um infante, Espasmado no olhar, fitando o corpo Que tem diante.
Oh! morra o coração — gérmen fecundo De mil tormentos; Desfaleçam-lhe as fibras — espedacem-se Os filamentos.
Isenta de paixões — de amor, ou ódio, Surja a razão; Não obedeça escrava aos sentimentos Do coração.
Torne-se o coração lâmpada extinta, Cinza no lar; E deixe que a razão veleje livre Em largo mar.
Creia num Deus — e dos dulçores goze De almo ascetismo; Não mais lhe roa as vísceras o cancro Do cepticismo.
A dívida infernal, batendo as azas, Perdendo as cores, Precipite-se súbito nas chamas Exteriores.
E Deus, que vivifica o alvar pinheiro, E a tenra planta; Que os soberbos calcina, e que os humildes Do pó levanta;
De minha vil baixeza, como os homens, Ah! — não se peja; Que ele mão cheia de mil dons em todos Largo despeja.
Mas se ‘té 'qui parece deslembrado, Triste de mim! Se não manda a guardar minh'alma dúbia Um querubim!
Se nunca se lembrar que um ente existe Nessa amargura! Melhor não fora me gelasse o sangue A morte dura?