Versos Portuguese João Simões Lopes Neto O Lunar de Sepé

Portuguese poem

O Lunar de Sepé

by (1865–1916)

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Eram armas de Castela Que vinham do mar de além; De Portugal também vinham Dizendo, por nosso bem: Mas quem faz gemer a terra... Em nome da paz não vem!

Mandaram por serra acima Espantar os corações; Que os Reis Vizinhos queriam Acabar com as Missões, Entre espadas e mosquetes Entre lanças e canhões!...

Cheiravam as brancas flores Sobre os verdes laranjais; Trabalhavam-se na folha Que vem dos altos ervais; Comia-se das lavouras Da mandioca e milharais.

Ninguém a vida roubava Do semelhante cristão Nem a pobreza existia Que chorasse pelo pão; Jesus Cristo era contente E dava sua benção...

Por que vinha aquele mal, Se o pecado não havia? O tributo se pagava Se o vizo-rei pedia, E, até sangue se mandava Na gente moça que ia...

Eram armas de Castela Que vinham do mar de além; De Portugal também vinham, Dizendo, por nosso bem: Mas quem faz gemer a terra... Em nome da paz não vem!

Os padres da encomenda Faziam sua missão: Batizando as criancinhas, E casando, por união, Os que juntavam os corpos Por força do coração...

Do sangue dum grão Cacique Nasceu um dia um menino, Trazendo um lunar na testa, Que era bem pequenino: Mas era — cruzeiro — feito Como um emblema divino!...

E aprendeu as letras feitas Pelos padres, na escritura; E tinha por penitência, Que a sua própria figura De dia, era igual às outras... E diferente, em noite escura!...

Diferente em noite escura, Pelo lunar do seu rosto, Que se tornava visível Apenas o sol era posto;

Assim era — Tiaraiú — , Chamado — Sepé, — por gosto.

Eram armas de Castela Que vinham do mar de além; De Portugal também vinham Dizendo, por nosso bem: Mas quem faz gemer a terra... Em nome da paz não vem!

Cresceu em sabedoria E mando dos povos seus; Os padres o instruíram Para o serviço de Deus E conhecer a defesa Contra os males do ateus...

Era moço e vigoroso, E mui valente guerreiro: Sabia mandar manobras Ou no campo ou no terreiro; E na cruzada dos perigos Sempre andava de primeiro.

Das brutas escaramuças As artes e artimanhas Foi o grande Languiru Que lh’ensinou; e as façanhas, De enredar o inimigo Com o saber das aranhas...

E, tudo isto, aprendia; E tudo já melhorava, Sepé — Tiaraiú, chefe Que o Sete Povos mandava, Escutado pelos padres, Que cada qual consultava.

Eram armas de Castela Que vinham do mar de além;

De Portugal também vinham Dizendo, por nosso bem: Mas quem faz gemer a terra... Em nome da paz não vem!

E quando a guerra chegou Por onde os Reis de além, O lunar do moço índio Brilhou de dia também, Para que os povos vissem Que Deus lhe queria bem...

Era a lomba da defesa, Nas coxilhas de I-bagé, Cacique muito matreiro Que nunca mudou de fé; Cavalo deu a ninguém... E a ninguém deixou de a pé...

Lançaram-se cavaleiros E infantes, com partazanas, Contra os Tapés defensores Do seu pomar e cabanas; A mortandade batia, Como ceifa de espadanas...

Couraças duras, de ferro, Davam abrigo à vida Dos muitos, que, assim fiados, Cercavam um só na lida!... Um só, que de flecha e arco, Entra na luta perdida...

Eram armas de Castela Que vinham do mar de além; De Portugal também vinham Dizendo, por nosso bem: Mas quem faz gemer a terra... Em nome da paz não vem!

Os mosquetes estrondeam Sobre a gente ignorada, Que, acima do seu espanto, Tem a vida decepada...; E colubrinas maiores Fazem maior matinada!...

Dócil gente, não receia, As iras de Portugal: Porque nunca houve lembrança De haver-lhe feito algum mal: Nunca manchara seu teto...; Nunca comera seu sal!...

E de Castela tampouco Esperava tal furor; Pois sendo seu soberano, Respeitara seu senhor; Já lhe dera ouro e sangue, E primazia e honor!...

A dor entrava nas suas carnes... Na alma, a negra tristeza, Dos guerreiros de Tiaraiú, Que pelejavam defesa, Porque o lunar divino Mandava aquela proeza...

Eram armas de Castela Que vinham do mar de além; De Portugal também vinham Dizendo, por nosso bem: Mas quem faz gemer a terra... Em nome da paz não vem!

E já rodavam ginetes Sobre os corpos dos infantes Das Sete Santas Missões, Que pareciam gigantes!... Na peleja tão sozinhos... Na morte tão confiantes!...

Mas, o lunar de Sepé Era o rastro procurado Pelos vassalos dos Reis, Que o haviam condenado:... Ficando o povo vencido... E seu haver... conquistado!

Então, Sepé, foi erguido Pela mão do Deus — Senhor, Que lhe marcara na testa O sinal do seu penhor!... O corpo ficou na terra... A alma, subiu em flor!...

E subindo para as nuvens, Mandou aos povos — benção! Que mandava o Céus — Senhor Por meio do seu clarão... E o — lunar — da sua testa Tomou no céu posição...

Eram armas de Castela Que vinham do mar de além; De Portugal também vinham Dizendo, por nosso bem: Mas quem faz gemer a terra... Em nome da paz não vem!