Portuguese poem
Tatu
by João Simões Lopes Neto (1865–1916)
Eu vim p'ra contar a história Dum — tatu — que já morreu, Passando muitos trabalhos Por este mundo de Deus.
O tatu foi muito ativo P'ra sua vida buscar; Batia casco na estrada, Mas nunca pôde ajuntar!
Ora pois, todos escutem Do tatu a narração, E se houver quem saiba mais, Entre também na função.
Ande a roda, o tatu é teu; voltinha no meio, o tatu é meu! —
O tatu foi homem pobre, Que apenas teve de seu Um balandrau muito velho Que o defunto pai lhe deu!
O tatu é bicho manso, Nunca mordeu a ninguém Só deu uma dentadinha Na perninha do meu bem.
O tatu é bicho manso Não pode morder ninguém; Inda que queira morder. O tatu dentes não tem.
O tatu saiu do mato Vestidinho, preparado; Parecia um capitão. De camisa de babado!...
O tatu saiu do mato Procurando mantimento!... Caiu numa cachorrada Que o levou cortando vento!...
O tatu me foi à roça Toda a roça me comeu... Plante roça quem quiser, Que o tatu quero ser eu!
O tatu é bicho chato, Rasteiro, toca no chão; Inda mais rasteiro fica Quando vai roubar feijão.
O tatu de rabo mole Faz guisado sem gordura; Ele é feio mas gostoso, O que lhe falta é compostura.
Depois de muito corrido Nos pagos em que nasceu O tatu alçou o poncho, E p'r'outras bandas se moveu.