Versos Portuguese Louis Bouilhet Cegonhas e Rodovalhos

Portuguese poem

Cegonhas e Rodovalhos

by (1821–1869)

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Salve, rei dos mortaes, Sempronio invicto, Tu que estreaste nas romanas mesas O rodovalho fresco e a saborosa Pedi-rubra cegonha!

Desentranhando os marmores de Phrugia, Ou já rompendo ao bronze o escuro seio, Justo era que mandasse a mão do artista Teu nobre rosto aos evos.

Porque fosses maior aos olhos pasmos Das nações do Universo, ó pai dos môlhos, Ó pai das comesainas, em crear-te Teu seculo esfalfou-se. A tua vinda ao mundo preparárão Os destinos, e acaso amiga estrella Ao primeiro vagido de teus labios Entre nuvens luzia.

Antes de ti, no seu vulgar instincto, Que comião Romanos? Carne insossa Dos seus rebanhos vis, e uns pobres fructos, Pasto bem digno d'elles; A escudella de páo outr'ora ornava, Com o saleiro antigo, a mesa rustica, A mesa em que, tres seculos contados, Comêrão senadores.

E quando, por salvar a patria em risco, Os velhos se ajuntavão, quantas vezes

O cheiro do alho enchia a antiga curia, O portico sombrio,

Onde vencidos reis o chão beijavão; Quantas, deixando em meio a mal cozida, A sem sabor chanfana, ião de um salto Á conquista do mundo!

Ao voltar dos combates, vencedores, Carga de gloria a náo trazia ao porto, Reis vencidos, tetrarcas subjugados, E rasgadas bandeiras.... Illudião-se os miseros! Bem hajas, Bem hajas tu, grande homem, que trouxeste Na tua ovante barca á ingrata Roma Cegonhas, rodovalhos!

Maior que esse marujo que estripava, Co' o rijo arpéo, as náos carthaginezas, Tu, Sempronio, co'as redes apanhavas Ouriçado marisco; Tu, glotão vencedor, cingida a fronte Co'o verde myrtho, a terra percorreste, Por encontrar os fartos, os gulosos Ninhos de finos passaros.

Roma desconheceu teu genio, ó Rufo! Dizem até (vergonha!) que negára Aos teimosos desejos que nutrias O voto da pretura. Mas a ti, que te importa a voz da turba ? Ephemero rumor que o vento leva Como a vaga do mar. Não, não raiarão Os teus melhores dias.

Viráõ, quando aspirar a invicta Roma As preguiçosas brizas do oriente; Quando co'a mitra d'ouro, o descorado, O cidadão romano, Pelo fôro arrastar o tardo passo E sacudir da toga roçagante, Ás virações os tepidos perfumes Como um satrapa assyrio.

Viráõ, viráõ, quando na escura noite A orgia imperial encher o espaço De viva luz, e embalsamar as ondas Com os seus bafos quentes; Então do somno acordarás, e a sombra, A tua sacra sombra irá pairando

Ao ruido das musicas nocturnas Nas rochas de Capréa.

Ó martyr dos festins! Queres vingança? Têl-a-has e á farta, á tua gran memoria; Vinga-te o luxo que domina a Italia; Resurgirás ovante Ao dia em que na mesa dos Romanos Vier pompear o javali sylvestre, Prato a que der os finos môlhos Troya E rouxinol as linguas.