Portuguese poem
A Fada Loira
by Maria O'Neill (1873–1932)
....... por nenhum respeito O proprio reino queira vêr sujeito?
E se com isto emfim vos não moverdes Do penetrante mêdo que tomastes Atai as mãos ao vosso vão receio, Que eu só resistirei ao jugo alheio.
Jás o povo, sem vontade, Olvida ser português. Quer o gozo, a ociosidade,. Que tão mal sempre lhe fez.
O rei de Castela pede O reino de Portugal, Porque a filha ao pai sucede E não ha direito igual.
Assim afirma, esquecendo Que os homens rêzes não são, E, que em corpo apodrecendo Se acha pedaço ainda são:
Era João que, esforçado, Tinha um ânimo de herói. Era Nuno, féro e ousado, Que a tal ideia se dói.
E olhando com desprezo Até seus próprios irmãos, Sente o peito á terra preso, Mostra a espada, e mostra as mãos.
― ¡¿Como?! pergunta pasmado, ¿Se encontra na nossa terra Quem prefira, subjugado, O reino, a partir para a guerra?
«¿Acaso não tendes já «Mãos com que brandir as lanças Ou nos homens já não ha «Mais valor que nas crianças?
«Erguei de novo a cabeça, «Quem só quer cama e conforto, Pois pode ser que aconteça Ficar sem ambos, e morto...
«Quem abdica a independência «Da sua própria nação «Nem mesmo em Deus tem clemência: «Tão vil é de condição.
«Mas ficai, se assim vos praz, «Por indolência ou receio. «Que eu só me oporei á paz «Firmada com jugo alheio.
«Ainda que a minha vida «Seja prêço a tanto mal «E' ganha e nunca perdida «Se eu a der por Portugal.»
Então o povo vencido Por tão sensatas razões, Provou que tinha entendido De Nuno as justas lições.
E erguendo estridente grita Brotada do coração, Que em ondas e orgulho agita, Quiz, e fez livre a nação.
Entre negras penedias, Onde vem bater o mar, Vê passar infaustos dias A linda dona Guiomar, De farta estar de arrelias Nem força tem de chorar. Até esquece as cotovias Que a costumam vir saudar.
A côrte co'a dona insiste P'ra vestir luto de la, A tudo Guiomar resiste, Imovel na barbaca Lança ao longe um olhar triste Sentindo que a esp'rança é vá... Eis aqui no que consiste O pezar da castelá:
Foi-lhe p'ra guerra o marido, Ha quinze anos bem contados, Com séquito mui luzido De fidalgos e criados. Tempo depois foi sabido, Por homens de lá voltados,
Que o conde tinha morrido Sendo os seus aprisionados.
Não quer tal crer a condessa, De olhos pregados no mar Vai sempre, dês que amanheça, Da barbacă vigiar. E fica, até que anoiteça, As ondas a contemplar, Sem que nela a fé esmoreça ¡Não desespera a esperar!
Inutil é que lhe falem, Nunca responde a ninguém. As censuras de que valem A quem sente que anda bem? Embora já lhe não calem: «Que os vivos direitos tem,» Embora todos a ralem, Ela trata-os com desdem.
E continúa lançando Os tristes olhos ao mar, Na certeza de que esp'rando Ha de por força alcançar. No castelo, conspirando, Andavam para a matar, Consados de a vêr chorando, Teimando em não se casar.
Sem ter danças nem folguêdos, Sem se jogar nos jardins, Todos mudos, quais penedos, Deram em torpes malsins. Á sombra dos arvorêdos, Ou sobre fofos coxins, Iam tecendo os enrêdos Para chegar aos seus fins.
Porém, uma tarde linda, Quando o sol beijava o mar, Foi com alegria infinda Que bradou dona Guiomar: ― ¿Quem ousa dizer-me ainda Que o não hei de vêr voltar? ¡Laura! ¡Joana! ¡Gracinda! Ide a notícia espalhar.
Pelas águas, lentamente, Descia pezada nave. A condessa, impaciente, Lamentava não ser ave. Falsa certeza que mente Talvez a cova lhe cave, Porque o destino inclemente Em nada será soave.
Da nave, atracando a terra, Desceu enorme caixão,
O conde volta da guerra Sem lança nem lorigão. Tal dôr á mulher se aferra Que lhe pàra o coração. Uma lousa ambos encerra, Repousam no mesmo chão.
Porêm agora, alta noite, A passar na barbacã, Não ha ninguêm que se afoite Por causa da castelã, Que do peito torturado Arranca tão fundos ais, Que alguêm que a tenha escutado Não pode esquecê-la mais.
¡Ha tão longos anos vivo Sem nunca ter feito bem!... Tendo orgulho e sendo altivo, Trato todos com desdêm, Se me não podem servir; Mas se, ao contrário, presumo Tirar proveito dalguêm, Isso então, sempre a sorrir, Visto que o limão tem sumo, Tanto me rojo no chão, Que acabo por me sentir Mais miserável que um cão.
Sou velho. A vida passou Sem nunca pensar no termo. Agora, que êle chegou, Olho p'ra traz, vejo um ermo. Não conto um só acto digno, E tenho mêdo, confesso,
Porque, quando o próprio enfermo Acha o seu estado maligno, É raro que pelo avesso O julgue qualquer doutor, Embora seja benigno E lhe dôa alheia dôr.
Em criança fiz maldades, Sabendo bem que as fazia, E aos outros mil crueldades De que não me arrependia. Em mentiras, garotices, Teimas, calúnias, fui sábio. Aproveitava o que lia Em qualquer velho alfarrábio. Mas eram sempre tolices Que eu procurava imitar, ¡Se eram o mel do meu lábio! ¡O sal do meu paladar!
Crescendo, não me emendei, Tornei-me sempre pior. Aprendendo quanto sei, Tornei-me um patife mór. Todo o mal que fiz, me pesa Em mêdo, no coração, Porque conservo de cór A lista do que me lesa Em pontos de perfeição.
Nada agora me conforta Em tão triste situação Vendo a morte quási á porta.
Leitor, o mal, a meu vêr, É que não se arrependia Por pena de mal fazer, Mas da pena que temia.
Quem imitar o astrólogo Procure a tempo pensar, Que a vida, sempre mais rápida, Acaba sem anunciar.
O' linda terra da Pátria, ¿Quem te verá sem te amar? ¿E quem é que pode, amando-te, Não te erguer n'alma um altar?
O' terra das amendoeiras, E dos laranjais em flôr, Onde os ribeiros murmuram Eternas canções de amor,
Eu hei de morrer por ti Para mais vida te dar. O' terra santa da Pátria, ¿Quem te não ha de adorar?
Clara
Eu penetro o pensamento, Sei mais do que me contais.
¿Que importa que deis, a sós, A palavra tantos brilhos, Se quando ergo a minha voz Não me respondem os filhos?
Perpétua e Glória
Como a voz duma netinha, Em rijo peito de ancião.
Se desejardes ouvi-la, O vosso ouvido apurai. E se quizerdes senti-la, O coração segurai.
Perpétua e Glória
O peito pulsa apressado Ao dizer-se o nome teu. És o sol que o brilho ofusca Dos outros astros no ceu.
Clara
¿Que darieis vós, senhora, A quem o trouxesse aqui ?
Zum, zum, zum, És mais valente que nenhum.
Quem nada faz merece bem Ser sempre olhado com desdem.
Zum, zum, zum. Faze por ser mais que nenhum.
Quem muito ao alto quer subir, Firme-se bem, não vá cair.
Zum, zum, zum, És mais valente que nenhum.
Pancada, amigo, é argumento Que serve só para um jumento.
Zum, zum, zum, Faze por ser mais que nenhum.
Quem quer gozar sem padecer, Não pode a vida conhecer.
Zum, zum, zum, És mais valente que nenhum.
P'ra dominar ouve a razão, Não dês ouvidos ao coração.
Zum, zum, zum, Faze por ser mais que nenhum.
Se aos bons queres agradar, Nunca te faças mal julgar.
Zum, zum, zum, És mais valente que nenhum.
Põe teu desejo e devoção Onde possas erguer a mão.
Zum, zum, zum, Faze por ser mais que nenhum.
Não faças mal o teu caminho, Não vás chegar ao meio sòsinho.
Zum, zum, zum, És mais valente que nenhum.
Vê que a injustiça as paixões solta E mesmo aos bons causa revolta.
Zum, zum, zum, Faze por ser mais que nenhum.
Não puxes sempre, sem parar. Tensão de mais pode quebrar.
Zum, zum, zum, És mais valente que nenhum.
Não pode nunca ser amado Quem para os mais não tem agrado.
Zum, zum, zum, Faze por ser mais que nenhum.
Guilherme, o Bom, tem de vencer, Pois tem o dom de convencer.
Zum, zum, zum, És mais valente que nenhum.
Chega o momento de se ilustrar Quem pela Pátria quizer lutar.
Zum, zum, zum, Faze por ser mais que nenhum. Pum, pum, pum,
Se vais á guerra Não escapa um, ¡Pum, pum, pum!
¡Ai de mim! ¡ai de mim! ¡Desgraçado Amôr Perfeito! Eu nasci são e escorreito, Veiu a guerra e põe-me assim, ¡Ai de mim! ¡ai de mim!
Dizem uns que sou parvinho, Outros afirmam que não. Eu tenho uso de razão E, apesar de beber vinho, Não tropeço no caminho.
¡Ai de mim! ¡ai de mim! Pois hei de deixar a terra, Ser soldado só para guerra? ¿Para que é que ao mundo vim? ¡Ai de mim! ¡ai de mim!
Dão-me por emblema um guizo, Um barrete de truão. Dizem que sou sem razão, Presumem de ter juizo, ¿Mas a quem falta mais siso?
¡Ai de mim! ¡ai de mim! Embora me chamem louco, Eu contento-me de pouco, Prefiro o pé ao chapim. ¡Ai de mim! ¡ai de mim!
Morram todos que têm tino E estão fartos de viver, Mas não me façam morrer Por ser ainda menino E ter fé no meu destino.
¡Ai de mim! ¡ai de mim! Que êsse malvado Parece estar empenhado Em me fazer num jardim. ¡Ai de mim! ¡ai de mim!
Se ao castelo 'inda voltar, Sem de balas ser tocado, Hei de subir, ajoelhado, Á barbacã de Guiomar. ¡Assim me possa salvar!
(Chorando, e com muita volubilidade :)
¡Ai de mim! ¡ai de mim! Parece que estou perdido. Tenho a morte no sentido, ¡Oiço ao longe pim! ¡pim! ¡pim! Mais valia ter morrido, Pelas ondas ser engulido, Do que estar doido e metido Com gente esperta e ruim. ¡Pim! ¡pim! ¡pim! ¡Ai de mim! ¡ai de mim!
¿Como hei de viver sem ti, O' alma da minha vida?! Se vais tão longe d'aqui Como hei de viver sem ti?
Qual flôr na haste pendida Que o vento norte queimou, Eu ficarei ressequida Qual flôr na haste pendida.
Parado o meu coração. Sob a terra humida e fria, Tornou-se extincto vulcão, Parado o meu coração.