Versos Portuguese Paula da Graça Bondade das Mulheres Vendicada e Malícia dos Homens Manifesta

Portuguese poem

Bondade das Mulheres Vendicada e Malícia dos Homens Manifesta

by (1700–1730)

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FIlha: mil gostos me dais. em vos ver cõ tanto assento. A belleza, que lograis vos offerece cazamento; sobre elle me consultais.

Creyo, que boa eleiçaõ fazeis em vos aconselhar; porque dos homens, na maõ naõ està mais que o enganar huma moça de feiçaõ.

Oh quantas hoje enganadas, choraràm seu mal perdidas, humas de todo deixadas, outras passando màs vidas, por se acharem mal cazadas.

Tudo nelles he caricia alprincipio, e mil amores; mas descoberta a malicia, talvez saõ usurpadores da feminil pudicicia.

Quanto nelles saõ commuas as malicias, sever queres, por naõ falarmos nas suas, pozeraõ as das mulheres a pregaõ por essas ruas.

Mayor semrazaõ fazer naõ vi nunca. Fortes iras me custou ouvir dizer, que composto de mentiras se andava isto avender!

A' tamanha inequidade logo entaõ quiz acudir; mas às velhas desta idade menos deve competir que a toda essa mocidade.

Com tudo, minha fomorsa, ainda que eu jà seja antiga, quero fazer lhe huma glosa, por vir a pè de cantiga, e ser do sexo zelosa.

Principia là o Author daquella declamaçaõ, sem mais Arte, ou mais furor, que o de hum Poeta do chaõ, a trovar com hum Doutor.

He isto, que quiz entrar a tomar conselho de hum sobre se havia cazar; mas eu julgo, que nenhum era capaz de acertar.

Infiro o do que falava que bem vedes, que trovava, taõ contra o que deve ser, que o pè do verso encurtava.

Esta he a prenda de Poeta, vede no mais, que feria. Que mais final de patéta, que montar a Poezia, c'uma só perna à gineta?

Sò hum Poeta de farrapos isto podia fazer; porque os mais Poetas guapos fempre nos daõ de comer em mais limpos guardanapos.

E por isto, agradecidas a alguns devemos estar; mas isto saõ mãos perdidas, a todos hei de tomar conta igual de suas vidas.

Todos (que aquelle só naõ) nos quizeraõ demandar naquella procuraçaõ. Quem a naõ quiz revogar caya na reconvençaõ.

Senhores homensarrões: logo lhes faço a saber, que estou pelas confissoens, que nos quizeraõ fazer, de que alguns faõ toleirões.

Concedo que aquellas duas enganassem seus consortes, e que fizessem das suas travessuras, as mais fortes, sendo em ambas muy commuas.

Mas os dous casos referidos mostrão tal basbaquidade naquelles tolos maridos, que só fora inequidade livralos de ser corridos.

Sò fe ensinaõ às pancadas os tolos; e condoîdas as mulherinhas, coitadas derão naquellas venidas, por verlhe as doenças curadas.

Se estes casos saõ verdade, e se os houve de tal Arte, quando contenhão maldade, só està da vossa parte na vossa fatuidade.

Mas deixados taes successos, que pouco saõ contra nòs, nos seus pequenos excessos; quero-vos mostrar a vòs vossos mufinos avessos.

Dizeis, que sendo cazadas usamos de travessuras. Mas todas saõ engraçadas. Somos chacorreiras puras, nunca malintencionadas.

Naõ o fazeis vòs assim. Mais pezado gracejais. Aquella, que he muy ruim nunca disto passa a mais; mas vòs levais peor fim

Quantas pobres muy sofridas padecem nas vossas mãos? Humas por muy oprimidas, outras, por processos vaos, em que as fazeis fementidas.

Que martyrio naõ atura quem dà c'um desconfiado? Naõ vale toda a lizura. A cautella he hum attentado, que a leva à sepultura.

Nada fazem a vosso gosto as mulheres; e he perdido o cuidado, que tem posto em servir a hum marido. que a tudo faz triste rosto.

Mas deraõ jà de barato as mulheres tal tormento, com tanto, que o vosso trato fosse das outras isento, por illicito contrato.

Naõ ha cousa mais penosa para huma mulher cazada, sendo talvez muy formosa, que ser de vos desprezada, talvez por huma ranhosa.

Porèm se aqui só paràra a malicia desta acçaõ inda eu a desculpàra; mas là chega a occasiaõ, em que inda a fazeis mais cara.

Mas jà naõ quero referirvos semilhantes crueldades. Naõ he precizo arguir-vos, com estas atrocidades, para que possa atordir-vos.

Naõ ha cousa mais horrivel no mundo, que a ingratidao, Naõ ha bruto incorregivel, naõ ha barbara Naçaõ, a quem nao seja insofrivel:

No mal, vos trata a mulher, com cuidado extremecido. Ora mostrai-me, sequer, hum a isto agradecido, com que me haja de benzer.

Tudo he sempre pelejar. Vossê naõ fez isto bem. Deve-me de querer matar. Naõ me assiste a qui ninguem, Cuidaõ só em se enfeitar.

Chega logo a coitadinha, Aqui estou tudo farei. Estou cosendo a galinha, por isso me dilatei. Perdoai-me, vida minha.

Eu (diz) jà naõ quero nada và vossê para onde vem. Como chega disfarçada? Và, que eu quero buscar quem naõ seja taõ descuidada.

Logo ella, com grande dor say dali toda chorosa; e lhe diz: Pois, meu amor, desejo ser cuidadosa, e naõ darvos dissabor.

Ella està para fazer tudo quanto elle ordenar. Elle paga com dizer, que outras hade buscar. Isto pode-se sofrer?

Eisaqui os destemperos, com que sempre nos tratais. Homens terriveis, e feros; porque à mulher vos mostrais en vez de gratos, severos?

Naõ sabeis, que só com ellas podieis ser bem tratados, nas doenças, e mazellas, segundo aquelles ditados de Isôpo, e de outras Novellas?

Mais que barbaro, e bruto jà disse, que era o ingrato; e se he certo, que tal fruto tiramos do vosso trato; Discorrei nisto hum minuto.

Emfim jà quero deixar demais processo fazer, por vos naõ envergonhar; pois para vos convencer, supponho, que ha de bastar.

Agora, se vòs quizeres ver o muito, que mentistes na malicia das mulheres, que erradamente imprimistes, ouvi mais doutos pareceres.

A todas vossas doutrinas, que dizeis, temos melhores tratados das Heroinas, que trazem varios Authores para repulsas mui dinas.

Alli consta, que valentes houve muitas, e avizadas. Nas Artes houve eminentes Heroinas decantadas, com que pasmàraõ as gentes.

Que os Filosofos fataes, que na materia falàraõ, em que vos fossem iguaes as mulheres, naõ achàraõ contradictorio, já mais.

Todos assentaõ, que naõ (excepto alguns may borrachos) temos real negaçaõ; pois naõ saõ femeas, ou machos as almas com distinçaõ.

Esse Tulio, que allegais esse Aurelio, que dizeis, peço-vos, que os vejais a este espelho, e vereis os erros, que respeitais.

Naõ importaõ os mais Romanos, que allegais do Gentilisimo; pois quanto hoje saõ humanos côm nosco, no barbarismo faltàraõ em ser urbanos.

Se me dizeis, que enganou Eva, triste creatura, a Adaõ, tambem nos deixou, naquella Virgem taõ pura, outra, que tudo emmendou.

Nada argue contra nòs o que achais no Genesîs, por se sujeitas a vòs Deos assim fazer nos quiz, foy por naõ ficardes sós.

Se lerdes mais Escripturas mil louvores nos vereis, pois naõ houve creaturas, que se mostrassem fieis com mais sinceras ternuras.

Sexo devoto as chamou Deus mesmo; pois conheceo o muyto que o elle amou quando Christo padeceo, e quando resuscitou.

Se tem alguma diffrença de vòs, he só na vontade; pois tem muyto mais intensa, a generosa piedade, que vòs, com vossa licença.

Vede quanto maltratou o povo, com crueis tratos a Christo, que só se achou huma mulher de Pilatos, que por elle lhe rogou.

Tudo o mais com evidencia consta serem Fariseos, que contra a Santa Innocencia só conspiràraõ Judeos, naõ femenil clemencia.

Se buscais outras Historias profanas, mil achareis, em que deixamos memorias, e testemunhas fieis de nossas famosas glorias.

Em quanto ao nosso vestir, se queremos bem trajar, deveis, por nos naõ ouvir, tudo a nosso gosto dar, e inteiramente o cumprir.

E senaõ, se sois prudentes, dizeime cà sem paixaõ. Quaes saõ os equivalentes empregos, que a nòs nos daõ para ficarmos contentes?

Nenhuns; porq̃ todo o posto de hum Reyno se dà a hũ varaõ. Se nos limitais o gosto ao enfeite; que razaõ ha, de lançarno-lo em rosto?

Se a Republica nos dera o mesmo, que a vòs vos dà, vossa mulher vos trouxera cobertos de tafetà, de ouros, e primavera.

Mas se só nos destinastes os cortejos, e attavios, sustentai o que creastes, naõ busqueis inda desvios ao pouco, que naõ tirastes.

Naõ só em nòs isto he mal a fala, o rizo; a allegria, dizeis, que he cousa jogral; e o calar, vilhacaria he por certo odio fatal!

Enfim, se no tempo estamos sisudas, deve assim ser; se em nossas cazas falamos, he que temos que dizer em nada disso peccamos.

Nada, do que nos dissestes tem a mais leve entidade. He certo, que o escreveftes por encobrir a maldade, com que jà todos nascestes.

De tudo, por consequencia resulta a vossa maldade, e a toda a nossa innocencia. Naõ negarei tal verdade, se tiverdes consciencia.

Que em vòs a malicia humana só esteja depositada, se vê no muito que engana o home a mulher; coitada, que disto graõ mal lhe emana.

Tudo o mais, que deduzis negamos; nem terá prova; porque o que nos arguiz he falso; e fizestes cova, em que cabeis, e cahis.

E assim faço aos meus leitores Juizes de tal sentença, esperando, que os Authores nos paguem a reconvença, etratem de ser melhores.

Filha tendes escutado quanto deixo convencido esse taõ tirano estado o de viver com hum marido cruel, e mal inclinado.

Naõ vos fieis de propostas, nem das suas apparencias. Por naō darmos màs repostas nos propoem mil conveniencias depois quebraõ-nos as costas.

Sempre foy o mais perfeito o estado do celibato. Eu nunca a outro achei geito. Procedî bem no meu trato; e fempre vivi com respeito.

Naõ se vos dê de ninguem. Dizei-lhe, que naõ quereis. Hide embora; e de quem der conselhos menos fieis Deos vos livre, e fade bem.