Portuguese poem
O Canto do Cossaco
by Pierre Jean de Béranger (1780–1857)
Vem, meu ginete: oh vem, meu nobre amigo! Chama-te em altos sons tuba do norte. Prestes no saque, intrepido nas brigas, Dá, guiado por mim, asas á morte.
Os teus jaezes não arreia o ouro; Mas de meus feitos o terás em paga. Meu ginete fiel, rincha orgulhoso, E os reis e os povos com teus pés esmaga.
Tuas rédeas me entrega a paz que foge. Ei-los por terra os europeus baluartes! Meus aureos sonhos realisa agora; Terás repouso na mansão das artes.
Volve a terceira vez ao Sena inquieto, Que te lavou sangrento, e a sede apaga. Meu ginete fiel, rincha orgulhoso, E os reis e os povos com teus pés esmaga.
Reis, sacerdotes, grandes nos clamaram, Entre o choro de miseros humanos: ―Cossacos, vinde ser de nós senhores! Servos seremos, por ficar tyrannos.»
E a cruz e o sceptro quebrarão meus fortes; Que eu hei tomado minha lança e adaga. Meu ginete fiel, rincha orgulhoso, E os reis e os povos com teus pés esmaga.
De um enorme gigante vi o espectro Nosso campo correr co' a vista ardente; E, gritando:―meu reino outra vez surge!»― Mostrar com a acha d'armas o occidente.
A sombra era immortal do rei dos Hunos; D'Áttila a voz, qual maldicção aziaga. Meu ginete fiel, rincha orgulhoso, E os reis e os povos com teus pés esmaga.
De que serve seu brilho á velha Europa? Que lhe presta o saber para salvar-se? Os turbilhões de pó, que hão-de sumi-la, Debaixo de teus pés vão levantar-se.
Templos, palacios, leis, memorias, usos, Na correria extrema, e pisa e estraga. Meu ginete fiel, rincha orgulhoso, E os reis e os povos com teus pés esmaga.