Portuguese poem
Peleja da Alma
by Silvino Pirauá de Lima (1848–1913)
Havia um homem no mundo Dono de muita riqueza Homem de muita valia Homem de muita nobreza
Dizia que só trabalhava Pra sustentar a avareza Era rico desta forma E não estimava a pobreza
Este homem era casado E de Deus não tinha auxílio Por sua infelicidade A mulher não tinha filho
Andava se maldizendo Com tão semelhante estrago Dizia que só trabalhava Pra sustentar o diabo
— Foi um dia na igreja Pediu com lágrimas doces Que o bom Deus lhe desse um filho Fosse de que jeito fosse
— Assim que ele pediu Deus do Céu determinou Que a cabo de poucos meses A mulher um filho encarnou
Teve nove meses no ventre Foram nove meses de dor Assim, do modo seguinte Deus do Céu determinou
A cabo de poucos meses A riqueza se acabou Nascendo o dito menino Riqueza nenhuma achou
Nasceu o dito menino Ficou com muita alegria Procurando padrinho rico Com arte de sabedoria
Procurando um homem rico Para ser padrinho do filho Só não procurava os pobres Porque eles não serviam Os restos dos farelinhos Se acabaram nesse dia
— Pegou este menino Mal educado criou Nunca lhe deu um conselho Para o bem nunca educou
O menino logo de pequeno O pai e mãe largou Não quis saber de padrinhos Nunca mais o procurou
E para amar a Deus Também nunca se lembrou Nunca foi ao pé do padre Também nunca jejuou Nunca deu uma esmola Nem por Deus, nem por seu amor
Os mandamentos divinos Toda vida desprezou Só entrou dentro da igreja No dia em que se batizou Nesta miserável vida Deus depressa o matou
Quando teve de morrer Neste ínterim infeliz Foi logo se confessá Com Deus, o reto juiz
E chegou aos pés de Deus Tratou de se ajoelhar Publicando estas palavras: "Senhor, me quero salvar"
— Deus olhou para a alma: "Alma de onde viesses? Com idade de 31 anos Que pelo mundo estivesses Sem te lembrares de mim Como é que me apareces?
Para eu poder te salvar Primeiro te confesses Publica por tua boca Que benefícios fizesses?"
— Eram diabos de todas as maneiras Diabo roxo, diabo preto Uns com garfos Outros com facas Outros com ferro Outros com espeto Perguntavam uns aos outros: "Em qual cama nós a deita?"
— A alma olhou para Deus: "O que será de mim aqui Nos pés do reto juiz Onde não posso mentir...
Mas... como vós me obrigais Com vós me confessarei Meus ocultos pensamentos Eu de vós não negarei:
Muito cedo, bem pequeno Meu pai e minha mãe larguei Não quis saber de padrinho Nunca mais o procurei;
Para amar ao nosso Deus Também nunca me lembrei Nunca fui aos pés do padre Também nunca jejuei
Esmola por vosso amor Eu no mundo nunca dei Os mandamentos divinos Toda a vida desprezei
Só entrei dentro da igreja No dia que me batizei Nesta miserável vida Não sei como me salvarei"
Todos os diabos falaram Tudo em palavras belas Lucifer dizia aos outros: "Que confissão aquela!..."
Deus olhou para a alma Em seu sentido moderno: "Como eu sou reto juiz Completo senhor eterno Está justa minha sentença Estás condenada ao inferno".
Os diabos gritavam Outros sorriam Lucifer dizia aos outros: "Daquela sentença eu sabia!"
Quando eles foram vendo Deus do Céu sentenciá-la Uns gritavam, outros uivavam Batiam palma em senzala
"Se não fosse ao pé de Deus Acolá queria pegá-la!" A alma viu-se apertada De angústias e agonias
Saiu dos pés de Jesus Para os da Virgem Maria Para ver se como mãe Que ainda a socorria
"Maria, Virgem Maria Mãe de meu Deus Redentor Mãe de Deus e mãe de Cristo Mãe do Padre Salvador Rogai por mim a teu filho Que nesta hora me condenou!"
— "Alma sai-te dos meus pés Para que vem valer-te de mim? Que meu filho, reto juiz Não faz o que é ruim"
Lucifer se levantou Disse: "Alma, que viesse ver cá? Manuel já deu a sentença Maria jeito não dá Aquilo que Manuel faz Não é para Maria desmanchar."
— "Senhora, tem compaixão De minha necessidade Já que o pecado roubou A minha felicidade
Será possível, Senhora?... O próprio pecado diz Que eu me vejo a vossos pés — Ainda hei de ser feliz
Maria, Virgem Maria Esposa do Espírito Santo Se vós não me valerdes De vossos pés não me levanto
— Maria, Virgem Maria Vai pedir a teu bom filho Que teu pedido não rejeita Se vós não fores ouvida Então irei satisfeita"
"Pobre alma fica aí Que vou falar com Domício Para ver se como mãe Inda dou um jeito a isso"
— Os diabos quando foram vendo A Virgem para a partida Lucifer dizia aos outros: — "Lá vai a compadecida! Pelo jeito que estou vendo Esta sentença é perdida"
E os diabos lá ficaram Todos com a cara torta — "Lá vai a compadecida! Mulher que com tudo se importa Pelo jeito que estou vendo Esta sentença está torta"
Nossa Senhora pediu Rogando a Nosso Senhor: — "Filho meu, meu bento Filho Filho e meu Redentor Aquela alma esteve aqui Por que Jesus não a salvou? Dizei-me, meu bento Filho Foi ela só quem pecou?"
— "Minha mãe, para que me pede Perante sua linda imagem?" — "Por que vós não condenastes O bom ladrão da Pelagem?"
"Filho meu, meu bento Filho Consolação dos aflitos Para que vós salvastes A Maria do Egito?"
— "Minha mãe, para que me pede Como no seu coração? Aquela infeliz esteve aqui Privada da salvação Que pecou sem ter temor Sem a menor compaixão"
— "Valha-me Santa Isabel Nossa Senhora Santana Estou vendo meu bento Filho Com as feições tão tiranas! Por aqueles nove meses Que estivesse em carne humana!"
— "Minha mãe, como me pede Por Santana e Santa Isabel Posso dar algum recurso Com a vista de São Miguel!"
— "Pronto estou aqui, Senhor À vossa disposição! Como havia de faltar À Virgem da Conceição Sabendo que, poderosa Tem o remédio nas mãos!
Felicidade da alma A quem der a proteção Ela querendo derruba Té a força do Aragão!"
Lucifer se levantou: — "Tenho razão de falar Esta alma já é minha Pois Miguel, queres tomar?"
— "Maldito cabo de embira Quem foi que te chamou cá Vais para as profundas do inferno Pois é lá que é teu lugar
Voltemos pra trás, Miguel Vamos falar com o juiz Pra ver que se dá recurso Pra aquela alma ser feliz."
"Dizei-me, meu bento Filho? Onde está vosso poder Se aquela alma tem castigo Pronta estou pra receber"
— "Minha Santíssima mãe Botai-me vossa bênção Que a senhora é a Rainha! É a flor da Redenção". Foi a protetora da alma Que satisfez a paixão!
Se não fosses, ó Maria Uma protetora tão forte Soberana Virgem Pia Se não fosse a Rainha Bem pouco se salvaria"
"Vem cá, Miguel! — Quem me chama? Lucifer que vá embora Que ele não tem parte em nada Que a alma que ele veio ver Da Virgem foi amparada"
"Está tão triste o Maldito! Eu alegre agora estou! Recebe esta embaixada Que o Rei dos Reis te mandou:
Disse que fosses embora Para tormentos eternos Fosses em chamas de fogo Pras profundas dos infernos
Disse mais que aquela alma Que tu viesses tentar Hoje triunfa na glória A Virgem fez triunfar"
Disse o diabo a São Miguel: "Pois nada posso lucrar? Meus serviços são perdidos Não vale a pena tentar!"
"Desgraçado sem ventura Um milhão tem de tentar A todos que iludires Pretendo sempre tomar" "Desgraçado sem ventura Como queres pelejar? Já estou fazendo um serviço Sem Jesus Cristo mandar"
Lucifer se levantou Lendo num livro sem letra Com pé de preá cambeta Faiscando pelos olhos Lançando brasas de fogo Fazendo muitas caretas São Miguel saiu sorrindo "Dou-te figas, cara preta!"