Versos Portuguese Walter Scott Trechos de Vizao de Don Rodrigo

Portuguese poem

Trechos de Vizao de Don Rodrigo

by (1771–1832)

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Existe hum som do fervida harmonia Que inda sublime feitos de Mavorte Ou morreo la c'o Mestre a melodia Que celebrou de Ilion a adversa sorte? Tal Wellington teu nome excitaria E por ti mares constrantando, e a morte Se inchara a voz da tuba, que afancia A Britania victoria, a Portugal vinganca.

Luz propria argentaea lampada mandava Em quanto a triste confissao fazia Rodrigo, e occultas couzas, que expressava De bom grado qualquer nunca diria Mas quando seos punhacs no scio crava Remorso, e medo; a carga occulta impia Do Crime a Conscientia nao atura E a Deszperacao folga na voz procura

A face do Prelado reverente E alva madeixa a frouxa luz se via; Porem Rodrigo o rosto, e nua frente Com suas maons, e o manto seu cobria Do soberbo Alarico o descendente Dizendo os seos pecados, nao soffria Que o visse homem mortal naquelle estado Guerreiro com remorso, e ao medo rei curvado.

A concencia aqui com desdem fero As faces do Monarcha afougeando A vozes Ilhe truncao-

Da luz preludio, musicas se ouviao Na terra a vis grilhoens ja destinada; Quaes nas rusticas dancas se faziao De Xerez na vindima celebrada Quando em Boiero rapido porfiao Gaio Mozo, Muchacha enamorada E a seu trage surrindo, em cabriolas Saltao bamboleando, e butem castanholas.

Das frouxas maous ja velha, entorpecida Cahir deixava o sceptro a Realeza De Favorito audas, Mulher perdida Vendo sem Ilhe importar seu throno a preza. Na choca a voz de amor so era ouvida Longe da intriga, e cortezam baixeza Onde ao som de guitarra, que agravada Grato se punha o Sol, grata a manham tarvada.

Quel marino vapor, de hum palmo extenso Que Elias vira do Carmello santo, Espelhar, engrossando o vulto immenso Nas terras de Israel fugido manto; Que a cor purpurca, a cor de Phebo intenso E o claro azul tornando em negro espanto, Do Ceo que escurreceo, cobrio de horrores Dezabao grossa chuva, e ventos bramiadores.

Tal innundando o placido terreno Pezada nuvem, veio extranho bando; Seu Chefe nuas maons, gesto screno, E na bainha a espada aprezentando Mas encobrindo perfido veneno Com ar de amigo; campo foi ganhando E rota a fe, a integridade leza Lanca as garrar de acor, e faz da Hespanha preza.

Ferrea c'roa lhe cinge ancioza frente Seu corracao seu ferreo sceptro imita; Nunca remorso lhe deteva a mente, De piedade nem pejo a voz lhe grita. De honra, e verdade estimulos nao sente Seio que a furia so do estrago agita. E quem ergueo ao throno a Iniquidade Nao tem a fe de Rei, nem a real bondade.

De ilha rude mais rude a prole veio Scentelha, que largou palhoca obscura, E trouxe a Capital incendio feio Nao teve origem mais abjecta e impura. Paul, que a peste do corrupto scio Exala, e seca aos campos a verdura Nao tem mais negra essencia e mais maligna Que alma que lhe ordenou a universal ruina.

Com passo collossal Figura umbrosa Ante o Chefe marchanilo aperecia, Membros de nevoa, e tocha pavarosa Qual meteoro em suas maons Luzia. Aquella alma de estragos sequiosa Ao lugubre clarao cega corria. Era Ambicao que no excitava a horrores Sem vir bem como outrora em menos turvas cores.

Nao desprezando ja baixa vinganca A imigo oppresso a destra aprezentava, Qual dos Romanos Fados em mundaca Caezar com ella o Rubicon passava. Nem folga em dar thesouros seos que alcanca, Qual Macedonio Moco prodigava Tirou-lhe o novo alumno esse vestido Vio-lhe a hedionda face, e o monstro amou despido.

Nao se pode em Britanica peleja Dizer de heroes de accoens qual mais se aclama; Se em Albuera Beresford troveja De Graham Barrosa exalta a fama! Qual o fragor, que o raio seu darjeda, Quizera hum verso de tumultuo de flama Para os cantar! Pois nunca se adornarao De taes tropheos heroes, que as armas mancjarao.

Quem trouxe ao campo a raca restaurada E emula a fez d'antiga illustre gloria; Quem lhe poz freio a raiva denodada E a grao coragem lhe firmou notaria. Quem fez alcar a Luzitania espada Pelo esquecido trilho da victoria, Diga Albuera, que os laureis lhe tece, Se Beresford illustre a minha lyra esquece!

Nao so no campo da battalha horrendo, Que as Legioens de Gallia ensanguentarao, Se mostrou seu valor raro estupendo, Pois que ali so seos dias se arriscarao. Mas na dotrina os esquadroens regendo, Que feros quaes Britanos pelejarao, Confunde a Injeva no louvor so muda, E a gloria militar, que he mais que a vida, escuda.

A mais rude atalaia Anglo-nascida Ao ver o feio horror, que pe lhe embarga, C'o mizero seu pao da mor movida Reparte, e mais feroz toma a espingarda. Do pranto a voz foi de Britania ouvida, Que a afflicta gente em soccorrer nao tarda; Rei, ou par, rico ou pobre nao se izenta Nao do Vate a cancao, que escasso dom prezenta.