Portuguese poem
Gozo os campos sem reparar para eles
by Alberto Caeiro (1888–1935)
Gozo os campos sem reparar para eles. Perguntas-me por que os gozo. Porque os gozo, respondo. Gozar uma flor é estar ao pé dela inconscientemente E ter uma noção do seu perfume nas nossas idéias mais apagadas. Quando reparo, não gozo: vejo. Fecho os olhos, e o meu corpo, que está entre a erva, Pertence inteiramente ao exterior de quem fecha os olhos À dureza fresca da terra cheirosa e irregular; E alguma cousa dos ruídos indistintos das cousas a existir, E só uma sombra encarnada de luz me carrega levemente nas órbitas, E só um resto de vida ouve.