Portuguese poem
J. Ramos Coelho
by Alessandro Manzoni (1785–1873)
ORREU; bem como gelido
Ficou, sem movimento, Dado o mortal anhelito, Orpham de tanto alento, Assim ferida, attonita Co' a nova a terra está ;
Muda, na hora última Do homem fatal pensando, Não sabe quem tão válido, Como elle caminhando, Seu pó de sangue humido, Como elle, pisará.
Brilhante o viu no solio O genio meu, cahido Depois, depois no imperio, Depois em fim vencido, E do universo ao fremito Sua voz unir não fez. Virgem de servo encómio, E de covarde insulto, Acorda ao sol esplendido, Tão de repente occulto, E solta á norte um cantico, Que é do porvir talvez.
Dos Alpes ás Pyramides, Do Rheno ao Manzanares, Raio, o veloz relampago Seguiu, rasgando os ares ; Troou de Scylla ao Tanais, De um mar a outro mar.
Foi verdadeira glória ! Aos tempos a sentença. Nós adoremos timidos De Deus a fôrça immensa, Que n'elle quiz a maxima Sua obra apresentar.
O procelloso e trépido Prazer d'uma alta empreza, A ância de um peito indonito Que sonha a realeza, E a ganha, e alcança um prémio Que era loucura esp'rar, Tudo provou : a glória Maior depois do p'rigo, A fuga e a victória, O throno e o exilio imigo, No pó duas vezes, próspero Duas vezes sôbre o altar.
Appareceu; dous seculos, Um contra o outro armado, Ante elle prosternaram-se Como aguardando o fado ; Impôz silencio, e árbitro Entre ambos se foi pôr. Despareceu, e no ocio, N'uma ilha só no imundo Findou, alvo contínuo Da inveja e dó profundo, De inextinguivel ódio, E de indomado amor.
Qual sôbre a fronte ao náufrago Se enrola e cai pesada A vaga, d'onde o misero, Co'a vista aita alongada, Buscava em torno avido Praia longinqua em vão,
Tal n'aquella alma em cúmulo Tombaram mil memórias. Oh ! quanta vez aos posteros Tentou narrar suas glórias, E nas eternas páginas Cahiu sem força a mão !
Oh! quantas no fim tacito De um dia sem proveito, No chão o olhar fulmineo, Os braços sôbre o peito, Inteiro o seu preterito Viu de repente erguer. Lembrou as tendas móveis, Os valles resoando, Do aço o brilho trémulo, Os esquadrões ondeando, E o concitado imperio, E o prompto obedecer.
Ai ! a tammanha mágoa Cedeu talvez afflicto, E desesp'rou ; mas válido Braço desceu bemdito, E para outro ar mais limpido, Piedoso o transportou ; E pelas sendas flóridas O conduziu da esp'rança Ao campo eterno, ao prémio Que mais que o anhelo alcança, Onde é negror, silencio A glória que passou.
Fé immortal, benefica De palmas bella e ufana, Mais um triumpho, alegra-te, Que nunca outra mundana Grandeza egual do Golgotha Á affronta se humilhou ;
Exulta, e o resto exanime Guarda-lh'o da maldade; Quem mata, e abre os tumulos, Quem pune, e tem piedade, Deus do seu leito funebre Ao lado se assentou.