Portuguese poem
A Victoria e a Piedade
by Alexandre Herculano (1810–1877)
Eu nunca fiz soar meu canto humilde Nos paços dos senhores: Eu jámais consagrei hymno mentido Da terra aos oppressores. Mal haja o trovador que vae sentar-se Á porta do abastado, O qual com ouro paga a alhêa infamia, O cantico aviltado. O filho das canções, da gloria o bardo Não manchou o alaude; O ingenho seu ha consagrado á Patria; Seu canto é da virtude. Ingenho!—dom dos ceus, consolo ao triste Nos dias de afflicção, Qual solto vento em areal deserto, Livres teus cantos são. No despontar da vida, do infortunio Murchou-me o sopro ardente: Pela terra natal, na flor dos dias, Eu suspirei ausente. O solo do desterro, ah, quanto ingrato É para o foragido; Ennevoado o ceu; arido o prado; O rio adormecido! Eu lá chorei, na idade da esperança, Da patria a dura sorte: Esta alma encaneceu;—e antes de tempo Ergueu hymnos á morte. E que infeliz ha hi, a quem não ria Da sepultura a imagem? Alli é que se afferra o porto amigo, Depois de ardua viagem.
Mas, quando o pranto me queimava as faces, O pranto da saudade, Deus escutou dos profugos as preces, Teve de nós piedade. Armas!—bradaram do desterro os filhos: Bem-disse-os o Senhor: E vencer ou morrer juncto com elles Jurou o trovador. Pelas vagas do mar correndo affoutos, Á gloria nos votámos; E, nos campos nataes, pendão invicto Os livres, nós, plantámos. Fanatismo, ignorancia, odio fraterno; De fogo céus toldados; A fome, a peste, o mar avaro, as hostes De innumeros soldados; Um futuro sem raio de esperança; Ouvir o vão lamento De infante, a vida incerta conduzido Por mão do soffrimento; Comprar com sangue o pão, com sangue o fogo Em regelado inverno; Eis contra o que, por mezes de amargura, Nos fez luctar o inferno. Mas constancia e valor tudo ha vencido: Ganhou-se eterna gloria; E dos tyrannos apesar, colhemos Os louros da victoria.
Teça-se, pois, o cantico subido Aos fortes vencedores. Livres somos!—Sumiram-se qual fumo Da Patria os oppressores. Sobre essa encosta, sobranceira aos campos, De sangue ainda impuros, Onde o canhão troou, por mais de um anno, Contra invenciveis muros, Eu, tomando o alaúde, irei sentar-me; Pedir inspirações A amiga noite, o genio que me ensina Suavissimas canções.
Reina em silencio a lua, o mar não brame, Os ventos nem bafejam..... Mas que ossadas são estas, que na encosta, Aqui e alli, alvejam? Esses?—São ossos vís, que não resguarda O sussurrar da gloria; Herdeiros só das maldicções das gentes, Das maldicções da historia: São os restos dos homens, que luctaram, Valentes no seu crime, Contra nós, contra a mão da Providencia, Que os maus derruba e opprime. Mas quem porá padrão que aos evos conte, Seus feitos derradeiros! Quem dirá—aqui dormem portuguezes; Aqui dormem guerreiros—? Quem virá na alta noite erguer por elles Resas de salvação? Quem ousará pedir para o vencido Um ai de compaixão? Virão, acaso, alevantar seus filhos O pranto solitario, Pelo que lhes legou de avós o nome Involto em vil sudario? Será a esposa, que lhes cubra as cinzas Com oração piedosa? Não!—nenhuma ousará dizer, chorando, Eu fui do escravo esposa. Será a amante?—Em tremedaes a pura Rosa nascer não sabe: A mais bella paixão não é de servos; Vil goso só lhes cabe. De mãe o amor tentára, unicamente, Sobre os corpos gelados, Vir chorar a esperança, em flor colhida, De seus annos cansados: Mas o espanto lh'o veda, e o rouco grito Do rude velador; Da noite os medos; de armas, já sem donos, Nas trévas o esplendor.
Quem, pois, consolará gementes sombras, Que ondeam juncto a mim? Quem seu perdão da Patria implorar ousa, Seu perdão de Elohim? Eu:—o christão:—o trovador do exilio, Contrario em guerra crua, Mas que não sei cuspir o fel da affronta Sobre uma ossada nua. O misero pastor desceu dos montes, Abandonando o gado, Para as armas vestir, dos céus em nome, Por phariseus chamado. De um Deus de paz hypocritas ministros Os tristes enganaram: Foram elles, não nós, que estas caveiras Aos vermes consagraram. Maldicto sejas tu, monstro do inferno, Que do Senhor no templo, A virtude insultando, ao crime incitas, Dás do furor o exemplo! Sobre os restos da Patria, tu bem creste Folgar de nosso mal, E, sobre as cinzas de cidade illustre, Soltar riso infernal. Tu, no teu coração insipiente, Disseste—Deus não ha!— Elle existe, malvado!—e nós vencemos: Treme.... que tempo é já. Mas esses, cujos ossos espalhados No campo da peleja Jazem, exoram a piedade nossa; Piedoso o livre seja! Eu pedirei a paz dos inimigos, Mortos como valentes, Ao Deus nosso juiz, ao que distingue Culpados de innocentes. Perdoou, expirando, o Filho do Homem Aos seus perseguidores: Perdão, tambem, ás cinzas de infelizes! Perdão—oh vencedores! Não insulteis o morto. Elle ha comprado Bem caro o esquecimento, Vencido adormecendo em morte ignobil, Sem dobre ou monumento. Que resta aos desditosos?—Somno eterno, Da Patria a maldicção, A justiça de Deus, tremenda, ignota, E a humana execração. Mas nós, saibamos esquecer os odios De guerra lamentavel; É generoso o forte, e deixa ao fraco O ser inexoravel. Oh, perdão para aquelle, a quem a morte No seio agasalhou! Elle é mudo:—pedi-lo já não póde; O da-lo a nós deixou. Da lei a espada puna o criminoso, Que vê a luz dos céus: O que legou á terra o pó da terra, Julga-lo cabe a Deus. E vós, meus companheiros, que não vistes Nossa inteira victoria, Não precisaes do trovador o canto; Vosso nome é da historia. Eu do vencido consolei a sombra; Eu perdoei por vós. Filhos da infamia os desgraçados eram; Ricos de gloria nós.
Porto—Agosto de 1833