Portuguese poem
A Voz
by Alexandre Herculano (1810–1877)
É tão suave ess'hora, Em que nos foge o dia, E em que suscita a lua Das ondas a ardentia;
Se em alcantís marinhos Nas rochas assentado, O trovador medita, Em sonhos enleiado!
O mar azul se encrespa Co' a vespertina brisa, E no casal da serra A luz já se divisa.
E tudo em roda cala, Na praia sinuosa, Salvo o som do remanso, Quebrando em furna algosa.
Alli folga o poeta Nos desvarios seus; E nessa paz que o cerca Bemdiz a mão de Deus.
Mas despregou seu grito A alcyone gemente, E nuvem pequenina Ergueu-se no occidente;
E sóbe, e cresce, e immensa, Nos ceus negra fluctua, E o vento das procellas Já varre a fraga nua.
Turba-se o vasto oceano, Com horrido clamor: Do vagalhão nas ribas Expira o vão furor.
E do poeta a fronte Cubriu véu de tristesa: Partiu-se á luz do raio Seu hymno á naturesa.
Feia alma lhe vagava Um negro pensamento, Da alcyone ao gemido, Ao sibillar do vento.
Era blasphema idéa, Que triumphava em fim: Mas voz soou ignota, Que lhe dizia assim:
"Cantor, esse queixume Da nuncia das procellas, E as nuvens, que te roubam Myriadas de estrellas;
E o fremito dos euros, E o estourar da vaga, Na praia, que revolve, Na rocha, onde se esmaga;
Onde espalhava a brisa Sussurro harmonioso, Em quanto do ether puro Descia o sol radioso,
Typo da vida do homem, É do universo a vida; Depois do afan repouso, Depois da paz a lida.
Se ergueste a Deus um hymno Em dia de amargura; Se te amostraste grato Nos dias de ventura,
Seu nome não maldigas, Quando se turba o mar: No Deus, que é pae, confia, Do raio ao scintilar.
Elle o mandou:—a causa Disso o universo ignora— E mudo está:—seu nume, Como o universo, adora!"
Oh sim: torva blasphemia Não manchará seu canto! Brama procella embora; Pese sobre elle o espanto;
Que de su' harpa os hymnos Derramará o bardo, Aos pés de Deus, qual oleo De recendente nardo.
Leça da Palmeira 1835
*A Victoria e a Piedade.*