Versos Portuguese Antero de Quental *A Canção Do Rei De Thule*

Portuguese poem

*A Canção Do Rei De Thule*

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Era uma vez um bom rei Em Thule--essa ilha distante, Ao morrer, deixou-lhe a amante Um copo de ouro de lei.

Era um copo de oiro fino Todo lavrado a primor; Se fosse o calix divino Não lhe tinha mais amor.

Seus tristes olhos leaes Não tinham outra alegria: E só por elle bebia, Nos seus banquetes reaes.

Chegada a hora da morte Poz-se o rei a meditar Grandezas da sua sorte Seus reinos á beira-mar.

Deixava um rico thesouro, Palacios, villas, cidades: De nada tinha saudades, A não ser do copo de ouro.

No castello da deveza, N'aquellas salas sem fim, Mandou armar uma meza Para um ultimo festim.

Convidou sem mais tardar Os seus fieis cavalleiros, Para os brindes derradeiros No castello á beira-mar.

Então, vasando-o de um trago, E com entranhada magoa, Poz nas ondas o olhar vago E atirou com a taça á agua.

Viu-a boiar suspendida, 'Té que as ondas a levaram: Os olhos se lhe toldaram, E não bebeu mais em vida!

1870-71.