Versos Portuguese Antero de Quental A fada negra

Portuguese poem

A fada negra

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Uma velha de olhar mudo e frio, De olhos sem cor, de lábios glaciais, Tomou-me nos seus braços sepulerais. Tomou-me sobre o seio ermo e vazio.

E beijou-me em silêncio, longamente, Longamente me uniu à face fria... Oh! como a minha alma se estorcia Sob os seus beijos, dolorosamente!

Onde os lábios pousou, a carne logo Mirrou-se e encaneceu-se-me o cabelo, Meus ossos confrangeram-se. O gelo Do seu bafo secava mais que o fogo.

Com seu olhar sem cor, que me fitava, A Fada negra me qualhou o sangue. Dentro em meu coração inerte e exangue Um silêncio de morte se engolfava.

E volvendo em redor olhos absortos, O mundo pareceu-me uma visão, Um grande mar de nevoa, de ilusão, E a luz do sol como um luar de mortos...

Como o espectro d'um mundo já defunto, Um farrapo de mundo, nevoento, Ruina aerea que sacode o vento, Sem cor, sem consistencia, sem conjunto...

E quanto adora quem adora o mundo, Brilho e ventura, esperar, sorrir, Eu vi tudo oscilar, pender, cair, Inerte e já da cor d'um moribundo.

Dentro em meu coração, n'esse momento, Fez-se um buraco enorme — e n'esse abismo Senti ruir não sei que cataclismo, Como um universal desabamento...

Razão! velha de olhar agudo e cru E de halito mortal mais do que a peste! Pelo beijo de gelo que me deste, Fada negra, bemdita sejas tu!

Bendita sejas tu pela agonia E o luto funeral d'aquela hora Em que eu vi baquear quanto se adora, Vi de que noite é feita a luz do dia!

Pelo pranto e as torturas benfazejas Do desengano... pela paz austera D'um morto coração, que nada espera, Nem deseja tambem... bendita sejas!