Portuguese poem
Entre sombras
Vem ás vezes sentar-se ao pé de mim — A noite desce, desfolhando as rosas — Vem ter commigo, ás horas duvidosas, Uma visão, com azas de setim...
Pousa de leve a delicada mão — Rescende amena a noite socegada — Pousa a mão compassiva e perfumada Sobre o meu dolorido coração...
E diz-me essa visão compadecida — Ha suspiros no espaço vaporoso — Diz-me: Porque é que choras silencioso? Porque é tão erma e triste a tua vida?
Vem commigo! Embalado nos meus braços — Na noite funda ha um silencio santo — N'um sonho feito só de luz e encanto Transporás a dormir esses espaços...
Porque eu habito a região distante — A noite exhala uma doçura infinda — Onde ainda se crê e se ama ainda, Onde uma aurora igual brilha constante...
Habito ali, e tu virás commigo — Palpita a noite n'um clarão que offusca — Porque eu venho de longe, em tua busca, Trazer-te paz e alivio, pobre amigo...
Assim me fala essa visão nocturna — No vago espaço ha vozes dolorosas — São as suas palavras carinhosas Agua correndo em crystalina urna...
Mas eu escuto-a immovel, somnolento — A noite verte um desconsolo immenso — Sinto nos membros como um chumbo denso, E mudo e tenebroso o pensamento...
Fito-a, n'um pasmo doloroso absorto — A noite é erma como campa enorme — Fito-a com olhos turvos de quem dorme E respondo: Bem sabes que estou morto!