Portuguese poem
*Miseria Occulta*
Bate nos vidros a aurora, Vem depois a noute escura; E o pobre astro que ali móra, Não abandona a costura!
Para uns a vida é d'abrolhos! Para outros mouta de lyrios! Bem o revelam seus olhos, Pisados pelos martyrios!
Miseria afugenta tudo! Miseria tem dons funestos! Quem é que gaba o velludo D'aquelles olhos honestos!...
Ninguem seus olhos brilhantes Descobre n'essas alturas... E aquellas formas tão puras, E aquellas mãos elegantes!
Sempre á costura inclinada! Morra o sol ou surja a lua Nunca vi descer á rua Aquella loura encantada!
Aquelle lyrio dobrado Por que assim vive escondido! Eu bem sei!--não tem calçado! E é muito usado o vestido!
Por isso não tem porvir Morrerá virgem e nova, E aguarda-a bem cedo a cova... Que eu bem a ouço tossir!
Miseria afugenta tudo! Miseria tem dons funestos! Quem é que gaba o veludo D'aquelles olhos honestos!
Pobre flor desfalecida Tão nova e ainda em botão! Como teve estreita a vida, Terá estreito o caixão!