Versos Portuguese António Joaquim de Castro Feijó Súpplica Ao Vento

Portuguese poem

Súpplica Ao Vento

by (1859–1917)

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Grito ao Vento que passa a galopar na treva: --«Escuta a minha dor!»--rouco, de braços hirtos, A ver se elle ouve e ao longe esta Saudade leva!

«Meus queixumes, oh Vento, hão de em ancias ouvir-t'os Esses campos que amei, vinhas, rios suaves, Pomares, laranjais, bosques de louro e myrtos,

Onde, inverno e verão, nunca emmudecem aves, Onde nunca se extingue o murmurar das fontes, Todo o anno a correr entre rosaes e agáves...

Vento largo, que vens d'ignotos horizontes! No teu rugido absorve o meu grito pungente! Vae repeti-lo ao mar e aos pinheiraes dos montes,

Para tornar mais triste o seu gemer plangente, Mais expressivo e humano o seu lamento amargo, Como um echo, a expirar, d'esta noite inclemente!

Leva comtigo, oh Vento, este gemido ao largo, A ver se nelle alguem a minha voz conhece, Nessas terras de luz, sem hiemal lethargo,

Onde o Estio a cantar longos meses se esquece, E onde o Sol não é só lampada que illumina, Mas o Ágni creador que tudo anima e aquece!

Debalde, sobre mim, na sua graça divina, Almas puras, abrindo a plumagem das asas, Com o ardor que nenhuma angustia contamina,

Espalham no meu lar como um calor de brasas... --Para fundir de todo esta geada tão densa, Só tu, meu claro Sol, que até d'inverno abrasas!

Vento frio, que vaes da minha noite immensa, Tenebroso e a rugir!--leva a minha Saudade, Como uma estrella a arder, na tua asa suspensa!

Quando essa luz passar, com que magua não ha de Reflecti-la o meu rio, e acariciá-la, vendo Que vae dos olhos meus a tenue claridade!

Mas então, Rio amado, as tuas aguas descendo Nessa luz reflectida, a tremer como um luar, Todo o passado irei nas tuas margens revendo,

E o coração talvez se esqueça de chorar, Como nauta que a voz de Loreley enleva, E para a morte vae nesse enlevo a cantar...

Vento surdo, que vaes a galopar na treva! Pára um momento! Escuta a minha voz clamante Vê como soffro, e ao longe esta Saudade leva!»

Mas o Vento não ouve o meu grito alarmante! Ai de mim, que sou eu?! pobre louco exilado, De toda a parte vendo o meu país distante, Como se lá tivesse os meus olhos deixado!