Versos Portuguese António Joaquim de Castro Feijó Somnambula

Portuguese poem

Somnambula

by (1859–1917)

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(Noite de S. João)

Passarinho trigueiro, Põe-te na areia!...

A areia é d'oiro,--painço loiro... Leito macio... Vê como o Rio Vae socegado, todo enlevado, Todo encantado na areia fina!

Passarinho trigueiro! Olha o salgueiro Como se inclina, A ver se as aguas Pode beijar! E o velho choupo, todo curvado, Todo engelhado, De tantas mágoas Que viu passar!

Nas aguas mansas, folhas cahidas, Como esperanças desfallecidas, Lá vão perdidas nas aguas mansas, Como esperanças Desfallecidas...

Passarinho trigueiro, Põe-te na areia!...

A velha ponte talvez te conte Lindas historias para encantar, Lindas historias da Lua Cheia, Quando na areia põe a corar O alvo linho Do seu tear... Passarinho trigueiro! pia baixinho! Ouve as cantigas, que as raparigas, No S. João, Soltam ao vento como um lamento Do coração!

............................ A vossa capella cheira, Cheira ao cravo, cheira á rosa, Cheira á flor da laranjeira...

Laranjeira desfolhada Numa noite de orvalhada, No leito d'algum linhar... Mas a alcachofra cortada Sabe alguem se vae seccar?!

Passarinho trigueiro, Põe-te na areia!

A areia é doce como se fosse Vergel macio para noivar... E dorme o Rio... praia deserta... Cuidado! Alerta! que a Lua espreita, Nunca se deita, sempre a rondar.

Passarinho trigueiro,

Olha a estrella do boieiro Que nunca dorme no ceu, A ver se do seu rebanho Alguma rêz se perdeu... Olha o Rio! é côr d'estanho Como um espelho a brilhar;

Cuidado! se é muda a areia, Pode o Rio murmurar, E ás noites a Lua Cheia Vem com elle conversar...

Já vae alto o sete-estrêllo, Vae despontar a alvorada; Mas uma voz desgarrada, Como um grito sem appêllo, Passa a cantar pela estrada:

«Esta noite, na novena, S. João pôs se a chorar... Da minha dor tinha pena, Sem me poder consolar.

As andorinhas voltaram, Desabrocharam as flores, E as andorinhas contaram Que tinhas novos amores...

Ninguem mais penas soffreu Nem dor maior supportou; Quem amou nunca esqueceu, Quem esqueceu nunca amou!

Ai! infeliz de quem passa! Ninguem seu amor escolhe, Pois o amor é uma desgraça, Que sem se esperar nos colhe...

Ai, infeliz de quem passa!... ............................»

Passarinho trigueiro,

Não ha amor como o primeiro... Vôa, vôa sem parar! Deixa a Lua estremunhada, Deixa o Rio a murmurar... O amor tem a asa ligeira, E antes que rompa a alvorada. Leva o ramo de oliveira Àquella dor desgarrada!