Versos Portuguese António Pereira Nobre (A Uma Senhora Que Não Quer Ser Emilia)

Portuguese poem

(A Uma Senhora Que Não Quer Ser Emilia)

by (1867–1900)

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Emilia és, quer queiras, ou não queiras: Que lindo nome o teu, soante de brizas! É um nome de pastoras e moleiras, Loira morgada do solar dos Nizas!

Muitas Emilias ha, entre ceifeiras, Ha Emilias nos serões das descamizas... Se tu, Senhor! dás nome ás Amendoeiras Com o nome de Emilia é que as baptizas!

Que Santa Emilia te acompanhe, Rainha! E com a tua Mãe seja madrinha, Quando ella, um dia, te levar á Igreja!

E, ó pura Gloria, que em teus olhos brilha! Dôces presagios meus, que a tua filha Seja loira tambem e Emilia seja!

Ilha da Madeira, novembro, 20, 1898.

21

O coração dos homens com a idade, A pouco e pouco, vae arrefecendo... Quão diversos me vão apparecendo Do que eram ao abrir da mocidade!

O sorrizo não tem já lealdade, Lagrimas são difficeis... não as tendo. Palavras não vos faltam, estou vendo Mostrar o que sentis só por vaidade.

Já não me illude, a Gloria que sonhei. Perdi a fé em tudo quanto amei. Mas só agora, eu sei o que é viver!

Não fazes bem, assim, em rir de mim! Tenho tido na vida horrores sem fim, Mas só agora, eu sei o que é soffrer!

Ilha da Madeira, dezembro, 1898.

22

O Senhor, cuja Lei é sempre justa, Deu-me uma infortunada mocidade, Talvez para eu saber (o que é verdade) Quanto é bom ser feliz, mas quanto custa!

Feliz de quem no mundo sem piedade, Encontrou alma que lhe entenda a sua, Que o mesmo é que ter na mão a Lua Tão longe n'essa triste Eternidade!

Os meus dias passavam tristemente Quando encontrei o teu olhar ridente: Foi a bençam de luz da Mãe de Deus!

Vaes deixar-me de novo, só na vida! Ao cabo de viagem tão comprida Talvez sintas mais perto os olhos meus!

Ilha da Madeira, janeiro de 1899.

23

Adeus a Constança

Vae o teu Pae andar ao sol de verão, E mais á chuva e ao vento; e só depois Poderá ter a colheita d'esse pão Que semeou cantando ao pé dos bois.

Feliz que eu fui em te encontrar na vida, Minha dôce Constança desejada! Antes de vêr-te a ti não via nada, Nem para mim a lua era nascida.

Tu vaes partir em breve com teu Pae Por esse mar que tão piedozo está. Não sêde amargas, ondas, mas chorae!

Vaes vêr campos em flôr que te conhecem... E se a colheita se fizesse já, Talvez na volta as ondas te trouxessem!

Ilha da Madeira, 1899.

24

Antes de partir

Varios Poetas vieram á Madeira (Pela fama que tem) a ares do Mar: Uns p'ra, breve, voltarem á lareira, Outros, ai d'elles! para aqui ficar.

Esta ilha é Portugal, mesma é a bandeira, Morrer n'esta ilha não deve custar, Mas para mim sempre é terra extrangeira, Á minha patria quero, emfim, voltar.

Ilhas amadas! Ceu cheio de luas! Ah como é triste andar por essas ruas, Pallido, de olhos grandes, a tossir!

Eu vou-me embora, adeus! mas volto a vêl-as, Vou com as ondas, voltarei com ellas, Mas como ellas p'ra tornar a ir!

Ilha da Madeira, fevereiro, 1899.

25

Meu pobre amigo! Sempre silencioso! Assim eu fui. Scismava, lia, lia... Mudei no entanto de Philosophia. Não creio em nada! e fui tão religioso!

Tomei parte no Exercito gloriozo Que foi bater-se por Israel, um dia! Cri no Amor, no Bem, na Virgem Maria, Não creio em nada! tudo é mentirozo!

Não vale a pena amar e ser amado, Nem ter filhos d'um seio de mulher Que ainda nos vêm fazer mais desgraçado!

Não vale a pena um grande poeta ser, Não vale a pena ser rei nem soldado E venha a Morte, quando Deus quizer!

St. Johann-am-Platz, outubro, 1899.