Portuguese poem
(Incompleta)
by António Pereira Nobre (1867–1900)
Ha raparigas n'este mundo, Ha raparigas que são feias, Mas nenhuma tanto como eu. De mim tenho nojo profundo, Ciumes do Sol, das luas cheias, Que vão tão lindas pelo céo!
Nos arraiaes, nas romarias, Adelaides, Joannas, Marias, Todas tem par, mas menos eu. Todas bailam, rindo e cantando, E eu fico-me a olhal-as scismando Na sorte que o Senhor me deu!
Se eu fosse cega ou aleijada, Talvez ficasse resignada, Porque havia de queixar-me eu? Mas sendo sã, sendo perfeita Tua vontade seja feita, Senhor! é sorte, é fado meu!
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Affirmações religiosas
Ó meus queridos! Ó meus S.tos limoeiros! Ó bons e simples padroeiros! Santos da minha muita devoção! Padres choupos! ó castanheiros! Basta de livros, basta de livreiros! Sinto-me farto de civilisação!
Rezae por mim, ó minhas boas freiras Rezae por mim escuras oliveiras De Coimbra, em S.to Antonio de Olivaes: Tornae-me simples como eu era d'antes, Sol de Junho queima as minhas estantes Poupa-me a Biblia, Anthero... e pouco mais!
No mar da Vida cheia de perigos Mais monstros ha, diziam os antigos, Que lá nas agoas d'esse outro mar. O que pensaes vós a respeito d'isto, Ó navegantes d'esse mar de Christo! Heroes, que tanto tendes que contar?
Chorae por mim, ó prantos dos salgueiros, Pois entre os tristes eu sou dos primeiros! Lamentos ao luar, dos pinheiraes, E vós ó sombra triste das figueiras! Chorae por mim ó flôr das amendoeiras Chorae tambem ó verdes cannaviaes!
E quando emfim, já farto de soffrer Eu um dia me fôr adormecer Para onde ha paz, maior que n'um convento: Cobri-me de vestes, ó folhas d'outomno, Ai não me deixeis no meu abandono! Chorae-me cyprestes, batidos do vento...
1897.
Ares da Andaluzia
Ó formoza Andaluzia! Terra de Nossa Senhora! Ó formoza Andaluzia Onde o luar parece dia Onde é dia a toda a hora!
Ai eu tenho sete muzas Quaes d'ellas prefiro eu? Ai eu tenho sete muzas, Trez d'ellas são andaluzas Porque as outras são do céo.
Malaga, terra de encantos, Terra das vinhas doiradas! Malaga, terra de encantos! Igrejas cheias de Santos, E Virgens cheias de espadas!
Vossa bocca tem desejos Que a bocca das mais não tem... Vossa bocca tem desejos E já morria por beijos No ventre da vossa mãe!
Ó meninas de Sevilha Sou doente, vinde amparar-me, Ó meninas de Sevilha Deixae-me a vossa mantilha Que eu não quero constipar-me!
Ó menina, olá, a mais alta Porque foge e me olha assim? Ó menina olá a mais alta, Se a belleza não lhe falta, Não julgue que é mais que a mim.
Ai esta Vida é tão curta! Ai o Amor dura um instante, Ai esta Vida é tão curta! Dormir, um dia, entre murta Nos braços d'uma outra amante!...
Olhos de Cadiz tão pretos (E o mar ao pé tão azul!) Olhos de Cadiz tão pretos De luto por Esqueletos Que o mar traz com vento sul.
Já sorvi na minha bocca Beijos de toda a Nação! Já sorvi na minha bocca Tanto mel, cabeça louca! Mas assim como estes, não!
Menina das pandeiretas! Que contente que hoje estaes! Menina das pandeiretas! Tão séria, de capas pretas, Ao lado de vossos Paes.
Vem beber a mocidade Com a tua trança solta. Vem beber a mocidade Não torna a vir esta idade E o Amor como ella não volta.
Ó seios como pombinhos Ó seios por quem bateis? Ó seios como pombinhos Tão alegres nos seus ninhos Não sei eu, mas vós sabeis...
Contas de rezar
A Maria dos Prazeres Mizericordia dos mares! Que escrevi para tu leres, Que eu fiz para tu rezares!
Maria dos Prazeres. Antonio sem Elles.
Maria é! Violeta da Humildade Onda do mar das Indias! sempre triste! Porque andará tão triste nessa idade Se o Deus em que ella crê para ella existe?
Maria é! Violeta da Humildade! Onda do mar das Indias! tão modesta E tão grande que ella é! Que dôr funesta A faz andar tão triste nessa idade?
E eu digo ao vêl-a entrar, meiga e modesta, Na Igreja, quando ajoelha e se persigna: «Parece incrivel faça parte d'esta Humanidade mentiroza e indigna!»
Quanto ella é Santa! quanto ella é boa! Até tem dó e compaixão por mim... Mal diria eu que a tragica Lisboa Tinha em seus muros uma Santa assim!
Ella nasceu para assistir ás guerras Ella nasceu p'ra atravessar os mares Ella nasceu para ir a longas terras Ella nasceu para proteger os lares!
Ella nasceu para ir com portuguezes, Ao que a vida arriscou, sarar-lhe as feridas, Com remedios, ao pé, mezes e mezes, Ou dar-lhe a uncção com suas mãos compridas!
Ella nasceu para levar comsigo Um exercito leal, mystico e forte. Ser a ultima a dobrar ante o inimigo E a primeira a morrer, sorrindo á morte!
Ella nasceu p'ra commandar armadas Vestir a bluza azul dos marinheiros. Morrer que importa? Sobre agoas salgadas No immenso oceano não faltam coveiros!
Ella é formosa e grande entre as mulheres, Sua doçura é toda de velludo... Mas as respostas que dão malmequeres! Tristes, Senhor! como na vida é tudo!
Quando ella passa toda côr de cera, Devagarinho e de missal na mão, Vae tão ligeira, lembra uma galéra Que segue viagem de vento á feição!
Os seus olhos são negros e tão bellos Que grandes são! têm penas disfarçadas... Que são elles? Ogivas de castellos Com duas meninas sempre debruçadas.
O seu cabello é negro e immenso e roça Pelo chão, como a noite e a escuridade, Aparta-o ao meio assim... Parece Nossa Senhora, quando tinha a sua idade!
A sua voz baixinha vem da alma, Tudo o que ha nella é do que eu gosto mais. É assim que falla a aragem pela calma Quando mareantes pedem temporaes.
Vozes assim só se ouvem no convento Á oração em silencio habituado, Que Deus entende a voz do Pensamento: Póde fallar-se a Deus e estar callado!
Os seios lembram duas pombas gemeas No seu ninho a dormir, muito quietinhas. Amor, protege o somno d'ellas, teme-as, Não acordes as pombas coitadinhas!
Que dizer do seu corpo esbelto de aza! Tão delgado, onde passa o seu annel? É o mais lindo Torreão da sua Caza! É uma náu da India, a S. Gabriel.
Os seus braços são debeis! mas exaltam E sustentam em mim toda a Esperança! Os seus braços, Senhor! são os que faltam A certa Venus que se admira em França!
O seu sorrizo é o sol, quando apparece, Vêl-a sorrir é vêr o sol cantar; Mas o seu habitual, ai não se esquece! É o sol ás tardes quando cahe no mar...
A sua bocca é uma romã vermelha, Mostrando em rizos os seus grãos de opala. Favo de beijos, que dá mel á abelha, A sua bocca é uma flôr com falla!
Lisboa, 1898.
A Ceifeira