Portuguese poem
Iii
by Augusto Gil (1873–1929)
Os olhos não são olhos, são punhaes. E tanto mais me fita, quanto mais Os crava no meu peito; Comtudo heide dizer-lhe:--«Oh minha amada Desfia-o, fibra a fibra, á punhalada Que morro satisfeito!»...
O matrimonio
De banza a tiracollo e capa á trovador, Eu nunca fui cantar endeixas amorosas, Lyrismos de Romeu junto aos balcões em flor, Por sob o luar dormente e as nuvens vaporosas.
Tão pouco tenho a linha airosa, aristocrata, Da fina flor do tom, os dandys adamados Que andam pelos salões, monoculando, á cata D'um dote que lhes salve a pança de cuidados.
Tenho, como qualquer, a aspiração ideal D'uma noiva gentil, d'um ninho conjugal; Mas tudo se desfaz se penso um só momento
N'este quadro banal, depois do casamento: O sogro, a sogra, a esposa, um filho já taludo E eu, muito aborrecido... a olhar p'ra aquillo tudo.
Dolorosa
Deitada sobre o esquife funerario E vista á chamma trémula dos cirios, Tinha a alvura das hostias do sacrario E a pallidez suavissima dos lirios.
No seu rosto gentil e sorridente Havia a languidez da pomba mansa. Parecia dormir serenamente, Immersa em vagos sonhos de creança.
Annos passaram desde que morreu; Comtudo vibra intensa no meu ser, A sensação do beijo que me deu Poucos momentos antes de morrer.
E julgo vel-a ainda á luz dos cirios, Deitada sobre o esquife funerario, Mais pallida que as petalas dos lirios, Mais branca do que as hostias do sacrario.
Sonho de nupcias
Eu punha no teu labio a nota quente A musica vibrante dos desejos, Poisava-te no collo branco, ardente, O poema rendilhado dos meus beijos.
Ao intimo contacto d'esses beijos, Erguia-se em volutas de serpente A curva delicada, alvinitente, Das tuas fórmas, tremulas de pejos.
Senti então, allucinado e mudo, O élo dos teus braços de velludo Cingir-me contra a carne feiticeira.
E sobre o veu de gaze delicado, Murchavam na capella do noivado Os albentes botões da laranjeira...
Serenata