Portuguese poem
Sextilhas A Um Menino Jesus D'Evora
by Augusto Gil (1873–1929)
A João Barreira
«Em Evora vi um menino... ...Que a dois annos não chegava ...Era de maravilhar»...
Garcia de Rezende. Miscellanea.
Num convento solitario D'Evora, cidade clara, Claro celleiro de pão, Existe uma imagem rara Obra dum imaginario Dos tempos que já lá vão...
É um menino Jesus, De bochechinha brunida Côr de maçã camoeza, Mas no seu rosto transluz Uma expressão dolorida Que enche a gente de tristeza...
De tantissimas imagens Nenhuma vi que mais prenda, Que maior ternura expanda, Com suas calças de renda, Seu vestido de ramagens, --E corôa posta á banda...
Gordo, nedio, bem trajado, Deveria ser feliz, Deveria estar sorrindo; Mas o seu olhar maguado, Tão maguado, tão lindo, Que não o é, bem n'o diz...
Se não fosse por ser Deus E o seu poder infinito Ter sempre que o demonstrar, Cá na terra e lá nos ceus, Estenderia o beicito --E desatava a chorar!...
Corre o tempo descuidado, Passa uma hora, outra hora, Atraz desta outras se vão E, quem o vê, encantado, Sem se poder ir embora Numa perpetua attração...
Eu entrei com sol a pino. Pouco depois da chegada (Pouco a mim me pareceu) Deixei de ver o Menino... Não era a vista cançada, --Foi a noite que desceu...
Mesmo assim lá ficaria Absorto em muda prece De quem mal sabe rezar, Se o sacristão não viesse, Com rodas de Senhoria, Dizer-me que ia fechar...
Pudesse tel-o trazido E não fosse eu rico, apenas De phantasias, d'esp'ranças, Punha-o num nicho florido Por sobre as camas pequenas Dum hospital de creanças...
Dum hospital modelar Sustentado por meus bens, Entre olaias e roseiras, Cheio de sol, cheio d'ar, E em que as boas enfermeiras --Seriam as proprias mães...
A mais ampla enfermaria Desse escolhido local De bondade e soffrimento --Era o fundo natural Da funda melancolia Do Menino do convento...