Versos Portuguese Augusto Gil Noiva

Portuguese poem

Noiva

by (1873–1929)

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A João da Silva

«Anda a dôr dissimulada Mas ella dará seu fruito.»

Crisfal

«Vae ser pedida. Casa qualquer dia.»

(Trecho duma carta)

Tive noticias hoje a teu respeito: «Vae ser pedida. Casa qualquer dia». E o coração tranquillo no meu peito --Continuou a bater como batia...

Surpreso duma tal serenidade, Todo eu, intimamente, me sondava: Pois nem ciume? Nem sequer saudade?! --E nem ciumes, nem saudade achava...

Saudades, não; que o teu amor antigo Guardam-no as cinzas (neste coração) Como em Pompeia aquelles grãos de trigo Que após centenas d'annos deram pão...

Saudades! Mas de quê?! Pois não sei eu A lei antiga como o proprio mundo De que o prazer mal chega, já morreu, E só a dôr nas almas cava fundo?

Causei-te longas horas d'amargura, Não consegues voltar a ser feliz; A chaga que te abri não terá cura, E se curar--lá fica a cicatriz.

Á luz dum juramento que trahiste Tu has de vêr-me toda a vida pois. Ergueste-o a Deus num dia amargo e triste E Deus casou-nos esse dia, aos dois...

Ciumes tambem não, por te venderes. Desgraçadinha! Antes te houvesses dado; Não descerias tanto entre as mulheres, Seria mais humano o teu peccado.

Porém, embora a tua falta aponte, P'ra mim és a que foste (ou que eu suppuz); O sol desapparece no horisonte --E a gente vê-o ainda a dar-nos luz...

Póde a desgraça erguer em frente a mim Altas montanhas d'elevados cumes. O sol do amôr doiral-as-ha, e assim, Vendo-o tão alto, não terei ciumes.

Ciumes! Elle é que hade tel-os, quando, Em claras noites de luar silente, Ouvir vibrar alguma voz, cantando Os versos que te fiz devotamente.

Versos para te ungirem os ouvidos E os labios d'anemica e de santa, Tão pobres, tão ingenuos, tão sentidos, Que o povo humilde os acolheu e os canta.

Então, se te olhar bem, logo adivinha... Logo sombriamente se convence De que a tua alma se fundiu na minha --E apenas o teu corpo lhe pertence.