Portuguese poem
Vale
by Bandarra (1500–1556)
A Dom João de Portugal Bispo da Guarda.
Illustrissimo Senhor, De Virtudes mui perfeito, Vós deveis de ser eleito De todas as Leis dador.
Deos vos deu tanto primor, Que não se acha em vossa marca Mais subido Patriarcha, De nobre Gente Pastor.
Determinei de escrever A minha çapataria: Por ver Vossa Senhoria O que sahe de meu cozer.
Que me quero entremeter Nesta obra, que offereço Porque saibão o que conheço, E quanto mais posso fazer.
Sahirá de meu cozer Tanta obra de lavores, Que folguem muitos Senhores De a calçar, e trazer.
E quero entremeter Laços em obra grosseira, Quem tiver boa maneira Folgará muito de aver.
Cozo com linho assedado, Encerado a cada ponto; Cozo meudo sem conto, Que assim o quer o calçado.
Se vier algum avizado Requerer algumas solas, Eu as corto sem bitolas, E logo vai sobresolado.
Tambem sou official: Ás vezes cozo com vira, E sei bem como se tira O ganho do cabedal.
Se vier algum zombar Fazer me qualquer pergunta, Dir lhe hei, como se ajunta A agulha com o dedal.
Minha obra he mui segura Porque a mais he de correia, Se a alguem parecer feia, Naõ entende de costura.
Eu faço obra de dura, E não ando pela rama, Conheço bem a courama, Que conve[m] á creatura.
Sei medir, e sei talhar, Semque vos assim pareça: Tudo tenho na cabeça, Se o eu quizer usar.
E quem o quizer grozar, Olhe bem a minha obra, Achará, que inda me sobra Dous cabos pera ajuntar.
Sempre ando occupado Por fazer minha obra boa, Se eu vivera em Lisboa, Eu fôra mais estimado.
Contente sou, e pagado De lançar um so remendo, Indaque estem remoendo, Não me toquem no calçado.