Versos Portuguese Basílio da Gama III (Já a nossa do mundo Última…)

Portuguese poem

III (Já a nossa do mundo Última…)

by (1741–1795)

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Já a nossa do mundo Última Parte Tinha voltado a ensangüentada fronte Ao centro luminar quando a campanha Semeada de mortos e insepultos Viu desfazer-se a um tempo a vila errante Ao som das caixas. Descontente e triste Marchava o General: não sofre o peito Compadecido e generoso a vista Daqueles frios e sangrados corpos, Vítimas da ambição de injusto império. Foram ganhando e descobrindo terra

Inimiga e infiel; até que um dia Fizeram alto e se acamparam onde Incultas várgeas, por espaço imenso, Enfadonhas e estéreis acompanham Ambas as margens de um profundo rio. Todas estas vastíssimas campinas Cobrem palustres e tecidas canas E leves juncos do calor tostados, Pronta matéria de voraz incêndio. O índio habitador de quando em quando Com estranha cultura entrega ao fogo; Muitas léguas de campo: o incêndio dura, Enquanto dura e o favorece o vento. Da erva, que renasce, se apascenta O imenso gado, que dos montes desce; E renovando incêndios desta sorte A Arte emenda a Natureza, e podem Ter sempre nédio o gado, e o campo verde. Mas agora sabendo por espias As nossas marchas, conservavam sempre Secas as torradíssimas campinas; Nem consentiam, por fazer-nos guerra, Que a chama benfeitora e a cinza fria Fertilizasse o árido terreno. O cavalo até li forte e brioso, E costumado a não ter mais sustento, Naqueles climas, do que a verde relva Da mimosa campina, desfalece. Nem mais, se o seu senhor o afaga, encurva Os pés, e cava o chão co’as mãos, e o vale Rinchando atroa, e açouta o ar co’as clinas. Era alta noite, e carrancudo e triste Negava o céu envolto em pobre manto A luz ao mundo, e murmurar se ouvia Ao longe o rio, e menear-se o vento. Respirava descanso a natureza. Só na outra margem não podia entanto O inquieto Cacambo achar sossego. No perturbado interrompido sono (Talvez fosse ilusão) se lhe apresenta A triste imagem de Sepé despido, Pintado o rosto do temor da morte, Banhado em negro sangue, que corria Do peito aberto, e nos pisados braços Inda os sinais da mísera caída. Sem adorno a cabeça, e aos pés calcada A rota aljava e as descompostas penas. Quanto diverso do Sepé valente, Que no meio dos nossos espalhava, De pó, de sangue e de suor coberto, O espanto, a morte! E diz-lhe em tristes vozes: Foge, foge, Cacambo. E tu descansas, Tendo tão perto os inimigos? Torna, Torna aos teus bosques, e nas pátrias grutas Tua fraqueza e desventura encobre. Ou, se acaso inda vivem no teu peito Os desejos de glória, ao duro passo Resiste valeroso; ah tu, que podes! E tu, que podes, põe a mão nos peitos À fortuna de Europa: agora é tempo, Que descuidados da outra parte dormem. Envolve em fogo e fumo o campo, e paguem O teu sangue e o meu sangue. Assim dizendo Se perdeu entre as nuvens, sacudindo Sobre as tendas, no ar, fumante tocha; E assinala com chamas o caminho. Acorda o índio valeroso, e salta Longe da curva rede, e sem demora O arco e as setas arrebata, e fere O chão com o pé: quer sobre o largo rio Ir peito a peito a contrastar co’a morte. Tem diante dos olhos a figura Do caro amigo, e inda lhe escuta as vozes. Pendura a um verde tronco as várias penas, E o arco, e as setas, e a sonora aljava; E onde mais manso e mais quieto o rio Se estende e espraia sobre a ruiva areia Pensativo e turbado entra; e com água Já por cima do peito as mãos e os olhos Levanta ao céu, que ele não via, e às ondas O corpo entrega. Já sabia entanto A nova empresa na limosa gruta O pátrio rio; e dando um jeito à urna Fez que as águas corressem mais serenas; E o índio afortunado a praia oposta Tocou sem ser sentido. Aqui se aparta Da margem guarnecida e mansamente Pelo silêncio vai da noite escura Buscando a parte donde vinha o vento. Lá, como é uso do país, roçando Dous lenhos entre si, desperta a chama, Que já se ateia nas ligeiras palhas, E velozmente se propaga. Ao vento Deixa Cacambo o resto e foge a tempo Da perigosa luz; porém na margem Do rio, quando a chama abrasadora Começa a alumiar a noite escura, Já sentido dos guardas não se assusta E temerária e venturosamente, Fiando a vida aos animosos braços, De um alto precipício às negras ondas Outra vez se lançou e foi de um salto Ao fundo rio a visitar a areia. Debalde gritam, e debalde às margens Corre a gente apressada. Ele entretanto Sacode as pernas e os nervosos braços: Rompe as escumas assoprando, e a um tempo Suspendido nas mãos, voltando o rosto, Via nas águas trêmulas a imagem Do arrebatado incêndio, e se alegrava... Não de outra sorte o cauteloso Ulisses, Vaidoso da ruína, que causara, Viu abrasar de Tróia os altos muros, E a perjura cidade envolta em fumo Encostar-se no chão e pouco a pouco Desmaiar sobre as cinzas. Cresce entanto O incêndio furioso, e o irado vento Arrebata às mãos cheias vivas chamas, Que aqui e ali pela campina espalha. Comunica-se a um tempo ao largo campo A chama abrasadora e em breve espaço Cerca as barracas da confusa gente. Armado o General, como se achava, Saiu do pavilhão e pronto atalha, Que não prossiga o voador incêndio. Poucas tendas entrega ao fogo e manda, Sem mais demora, abrir largo caminho Que os separe das chamas. Uns já cortam As combustíveis palhas, outros trazem Nos prontos vasos as vizinhas ondas. Mas não espera o bárbaro atrevido. A todos se adianta; e desejoso De levar a notícia ao grande Balda Naquela mesma noite o passo estende. Tanto se apressa que na quarta aurora Por veredas ocultas viu de longe A doce pátria, e os conhecidos montes, E o templo, que tocava o céu co as grimpas. Mas não sabia que a fortuna entanto Lhe preparava a última ruína. Quanto seria mais ditoso! Quanto Melhor lhe fora o acabar a vida Na frente do inimigo, em campo aberto, Ou sobre os restos de abrasadas tendas, Obra do seu valor! Tinha Cacambo Real esposa, a senhoril Lindóia, De costumes suavíssimos e honestos, Em verdes anos: com ditosos laços Amor os tinha unido; mas apenas Os tinha unido, quando ao som primeiro Das trombetas lho arrebatou dos braços A glória enganadora. Ou foi que Balda, Engenhoso e sutil, quis desfazer-se Da presença importuna e perigosa Do índio generoso; e desde aquela Saudosa manhã, que a despedida Presenciou dos dous amantes, nunca Consentiu que outra vez tornasse aos braços Da formosa Lindóia e descobria Sempre novos pretextos da demora. Tornar não esperado e vitorioso Foi todo o seu delito. Não consente O cauteloso Balda que Lindóia Chegue a falar ao seu esposo; e manda Que uma escura prisão o esconda e aparte Da luz do sol. Nem os reais parentes, Nem dos amigos a piedade, e o pranto Da enternecida esposa abranda o peito Do obstinado juiz: até que à força De desgostos, de mágoa e de saudade, Por meio de um licor desconhecido, Que lhe deu compassivo o santo padre, Jaz o ilustre Cacambo - entre os gentios Único que na paz e em dura guerra De virtude e valor deu claro exemplo.

Chorado ocultamente e sem as honras De régio funeral, desconhecida Pouca terra os honrados ossos cobre. Se é que os seus ossos cobre alguma terra. Cruéis ministros, encobri ao menos A funesta notícia. Ai que já sabe A assustada amantíssima Lindóia O sucesso infeliz. Quem a socorre! Que aborrecida de viver procura Todos os meios de encontrar a morte. Nem quer que o esposo longamente a espere No reino escuro, aonde se não ama. Mas a enrugada Tanajura, que era Prudente e exprimentada (e que a seus peitos Tinha criado em mais ditosa idade A mãe da mãe da mísera Lindóia), E lia pela história do futuro, Visionária, supersticiosa, Que de abertos sepulcros recolhia Nuas caveiras e esburgados ossos, A uma medonha gruta, onde ardem sempre Verdes candeias, conduziu chorando Lindóia, a quem amava como filha; E em ferrugento vaso licor puro De viva fonte recolheu. Três vezes Girou em roda, e murmurou três vezes Co’a carcomida boca ímpias palavras, E as águas assoprou: depois com o dedo Lhe impõe silêncio e faz que as águas note. Como no mar azul, quando recolhe

A lisonjeira viração as asas, Adormecem as ondas e retratam Ao natural as debruçadas penhas, O copado arvoredo e as nuvens altas: Não de outra sorte à tímida Lindóia Aquelas águas fielmente pintam O rio, a praia o vale e os montes onde Tinha sido Lisboa; e viu Lisboa Entre despedaçados edifícios, Com o solto cabelo descomposto, Tropeçando em ruínas encostar-se. Desamparada dos habitadores A Rainha do Tejo, e solitária, No meio de sepulcros procurava Com seus olhos socorro; e com seus olhos Só descobria de um e de outro lado Pendentes muros e inclinadas torres. Vê mais o Luso Atlante, que forceja Por sustentar o peso desmedido Nos roxos ombros. Mas do céu sereno Em branca nuvem Próvida Donzela Rapidamente desce e lhe apresenta, De sua mão, Espírito Constante, Gênio de Alcides, que de negros monstros Despeja o mundo e enxuga o pranto à pátria. Tem por despojos cabeludas peles De ensangüentados e famintos lobos E fingidas raposas. Manda, e logo O incêndio lhe obedece; e de repente Por onde quer que ele encaminha os passos Dão lugar as ruínas. Viu Lindóia Do meio delas, só a um seu aceno, Sair da terra feitos e acabados Vistosos edifícios. Já mais bela Nasce Lisboa de entre as cinzas - glória Do grande conde, que co’a mão robusta Lhe firmou na alta testa os vacilantes Mal seguros castelos. Mais ao longe Prontas no Tejo, e ao curvo ferro atadas Aos olhos dão de si terrível mostra, Ameaçando o mar, as poderosas Soberbas naus. Por entre as cordas negras Alvejam as bandeiras: geme atado Na popa o vento; e alegres e vistosas Descem das nuvens a beijar os mares As flâmulas guerreiras. No horizonte Já sobre o mar azul aparecia A pintada Serpente, obra e trabalho Do Novo Mundo, que de longe vinha Buscar as nadadoras companheiras E já de longe a fresca Sintra e os montes, Que inda não conhecia, saudava. Impacientes da fatal demora Os lenhos mercenários junto à terra Recebem no seu seio e a outros climas, Longe dos doces ares de Lisboa,

Transportam a Ignorância e a magra Inveja, E envolta em negros e compridos panos A Discórdia, o Furor. A torpe e velha Hipocrisia vagarosamente Atrás deles caminha; e inda duvida Que houvesse mão que se atrevesse a tanto.

O povo a mostra com o dedo; e ela, Com os olhos no chão, da luz do dia Foge, e cobrir o rosto inda procura Com os pedaços do rasgado manto. Vai, filha da ambição, onde te levam O vento e os mares: possam teus alunos Andar errando sobre as águas; possa Negar-lhe a bela Europa abrigo e porto. Alegre deixarei a luz do dia, Se chegarem a ver meus olhos que Ádria Da alta injúria se lembra e do seu seio Te lança - e que te lançam do seu seio Gália, Ibéria e o país belo que parte

O Apenino, e cinge o mar e os Alpes. Pareceu a Lindóia que a partida Destes monstros deixava mais serenos E mais puros os ares. Já se mostra Mais distinta a seus olhos a cidade. Mas viu, ai vista lastimosa! a um lado Ir a fidelidade portuguesa, Manchados os puríssimos vestidos De roxas nódoas. Mais ao longe estava Com os olhos vendados, e escondido Nas roupas um punhal banhado em sangue, O Fanatismo, pela mão guiando Um curvo e branco velho ao fogo e ao laço. Geme ofendida a Natureza; e geme Ai! Muito tarde, a crédula cidade. Os olhos põe no chão a Igreja irada E desconhece, e desaprova, e vinga O delito cruel e a mão bastarda. Embebida na mágica pintura Goza as imagens vãs e não se atreve Lindóia a perguntar. Vê destruída A República infame, e bem vingada A morte de Cacambo. E atenta e imóvel Apascentava os olhos e o desejo, E nem tudo entendia, quando a velha Bateu co’a mão e fez tremer as águas. Desaparecem as fingidas torres E os verdes campos; nem já deles resta Leve sinal. Debalde os olhos buscam As naus: já não são naus, nem mar, nem montes, Nem o lugar onde estiveram. Torna Ao pranto a saudosíssima Lindóia E de novo outra vez suspira e geme. Até que a noite compassiva e atenta, Que as magoadas lástimas lhe ouvira, Ao partir sacudiu das fuscas asas, Envolto em frio orvalho, um leve sono, Suave esquecimento de seus males.