Portuguese poem
Moreninha
by Bruno Seabra (1837–1876)
— Moreninha, dás-me um beijo. — E o que me dá, meu senhor? — Este cravo... — Ora, esse cravo! De que me serve uma flor? Há tantas flores nos campos! Hei de agora, meu senhor, Dar-lhe um beijo por um cravo? É barato; guarde a flor.
— Dá-me o beijo, moreninha, Dou-te um corte de cambraia. — Por um beijo tanto pano! Compro de graça uma saia! Olhe que perde na troca, Como eu perdera com a flor; Tanto pano por um beijo... Sai-lhe caro, meu senhor.
— Anda cá... ouve um segredo... — Ai, pois quer fiar-se em mim? Deus o livre; eu falo muito, Toda mulher é assim...
E um segredo... ora um segredo... Pelos modos que lhe vejo Quer o meu beijo de graça, Um segredo por um beijo?!
— Quero dizer-te aos ouvidos Que tu és uma rainha... Acha, pois? e o que tem isso? Quer ser rei, por vida minha?
— Quem dera que tu quisesses... — Não duvide, que o farei; Meu senhor, case com ela, A rainha o fará rei...
— Casar-me?... ainda sou tão moço... — Como é criança esta ovelha! Pois eu pra beijar crianças, Adeusinho, já sou velha.